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COMO FUNCIONA O GOLPE EM AGÊNCIAS DE CASTING

Oi! Vi seu perfil no Instagram. Quanta coisa bacana, justamente o que eu estava procurando! Podemos conversar?

Começa assim: Um empresário abre sua empresa e aluga um pequeno escritório como sede. É esse endereço que vai dar credibilidade ao negócio. Nas redes, cria um perfil matriz e uma espécie de perfis de franquia em diferentes estados do Brasil. Cada perfil de franquia tem seus prestadores de serviços: os agentes/agenciadores. São eles que passam o dia na internet bisbilhotando os perfis de artistas e entusiastas das artes da interpretação - Eis a forma simples da rede da pirâmide de golpes de casting no Instagram!


Casamatas são poderes nômades. Em arquitetura militar, uma casamata é uma instalação fortificada fechada e abobadada, independente ou integrada numa fortificação maior, à prova dos projéteis inimigos. O termo é utilizado de um modo bastante genérico, podendo designar instalações de vários tipos e tamanhos, normalmente construídas para estadia temporária. Por ter caráter nômade, os habitantes temporários dessas casamatas migram para outros lugares e quando os combatentes vão buscá-los, não encontram mais ninguém. Todos somem.


Essa prática tem analogia direta com o modelo empregado por agências e produtoras de elenco que agem de má fé em busca de potenciais clientes.

Beeem explicadinho pra você

O PERFIL DE MATRIZ tem uma espécie de padrão de postagem que geralmente simula situações reais de bastidores de filmagem, com fotos montadas de modelos e figurantes como se estivessem num set real. Ele também dá dicas sobre a profissão e fala muito sobre talento. Esse PERFIL DE MATRIZ envia esse mesmo conteúdo para PERFIS DE FRANQUIA, geralmente administrados por representantes dessa "empresa" em diferentes estados do país. Não é possível assegurar que são pessoas reais que operam esse sistema ou se tudo é operacionalizado por uma empresa que gerencia redes. Abaixo dos PERFIS DE FRANQUIA estão pessoas reais que realmente buscaram emprego e conseguiram oportunidade como possíveis bookers, agentes de elenco, agenciadores e olheiros. Essa base da pirâmide conta com pessoas que realmente precisam vender produtos e serviços EM NOME do PERFIL DE MATRIZ (no caso, a agência em si).


É algo parecido, por exemplo, com vendedores de chip de telefonia móvel que ficam na porta dos shoppings. Eles não são considerados funcionários da loja e também não são representantes oficiais da marca de serviço telefônico, porém, vestem a camisa dessa marca, o que gera a credibilidade em quem passa e se interessa.


Esses olheiros então, pra se sentirem pertencentes ao trabalho, passam a ficar muito tempo na internet dando likes em fotos de artistas locais de diferentes cidades. E nas publicações do feed deles não há fotos pessoais... há fotos do logotipo DO PERFIL DE MATRIZ e repostagens das publicações desse perfil e dos PERFIS DE FRANQUIA.


A abordagem geralmente é assim:


"F a l a c o m i g o! Pera aí, deixa eu me apresentar: sou Fulano de Tal, produtor da MATRIZ X. Não somos agência, não queremos te vender curso e nem prometer o que não podemos cumprir. Pera aí, pera aí: deixa eu começar do jeito certo. Desculpa chegar assim no seu privado, mas eu queria muito te apresentar a nossa produtora (Aliás, já conhece o nosso trabalho? Da uma stalkeada!), nosso jeito de trabalhar, porque trabalhamos assim e como podemos ajudar você na sua carreira. Hoje, a agência MATRIZ está espalhada por todo o Brasil, com a principal missão de dar pro ator/atriz uma base de auto-produção, pra que ele/ela nãofique refém do mercado de trabalho e possa ser inserido nesse, ter reconhecimento artístico dentro daquilo que ele/ela almeja. Se te interessar, me manda um “oi” no WhatsApp para conversarmos melhor sobre as possibilidades. Abração!"


Com a abordagem inicial super simpática e a sensação de que alguém está vendo, o artista em formação ou menos experiente acredita sim que o seu perfil foi visto por alguém que pode colocá-lo no mercado de trabalho... E é aí que o golpe começa!


Após algumas conversas, pedem para que o internauta "escolhido pelo olheiro" visite os sites da MATRIZ para que veja o quanto o trabalho é sério e tudo mais. Passada essa primeira lavagem cerebral, são colocados os valores dessa espécie de assessoria dirigida ao artista agenciado: A empresa fica por volta de uma semana sem mandar notícias e quando retorna diz que o seu perfil foi pré-selecionado pra um job (trabalho) muito bom, mas que precisa de fotos novas urgentemente. Empolgado, o artista inexperiente manda algumas fotos e descobre que nenhuma funciona, pois não é profissional. Então, o agente sugere que faça um book. Esse book custa entre R$1.500,00 e R$2.000,00 e será primordial para que o cliente possa ver o material dele. Mas em sã consciência, quem teria R$1.500,00 disponíveis assim, em meio à uma pandemia? Pois é... Calma! Eles permitem passar o book em até dois cartões (ou cheque pré-datado). O artista iniciante corre contra o tempo, consegue os cartões, imprime as folhas de cheque, paga... e nunca recebe as fotos. Há ainda um outro risco... O do agenciado pagar e sequer ser chamado pra fazer essas fotos.


É nesse momento que as pessoas se sentem lesadas (e com razão) e passam a correr atrás do prejuízo. Mas você lembra do parágrafo que abriu esta matéria? O parágrafo que fala sobre as Casamatas? Os poderes nômades? É isso, caro amigo... Você vai procurar o perfil do Instagram, ele mudou de nome. Você vai reclamar com o PERFIL DE FRANQUIA, ele diz que não conhece o agente que o procurou e que pessoas de má fé usam O LOGOTIPO da empresa e as mesmas fotos no Feed. Aí você vai no PERFIL MATRIZ, que é o oficial, e ele diz que não faz esse tipo de abordagem. Pimba! Você caiu na pirâmide que não tem ponta e ninguém pra responder e auxiliar. Os funcionários, assim como os soldados em guerra, trocaram de posto antes do exército rival os alcançar.


São muitas as denúncias em sites como o Reclame Aqui e o Procon. Só que para denunciar, é preciso ter um endereço, um CPF, um CNPJ. Quando não há, não tem boletim de ocorrência que faça valer sua reclamação.


Outra prática comum é a de avisar ao agenciado mais novo que em duas semanas haverá uma caravana ao Rio de Janeiro onde o elenco da agência poderá participar de seletivas de trabalhos com alguém que conhece alguém que trabalha com alguém que mora com alguém da Globo. Aí a pessoa empolgada paga uma taxa de R$1.000,00, viaja, fica num hotel e participa da bendita seletiva que não tem vínculo nenhum com a emissora. Às vezes, as agências até articulam uma participação desses agenciados numa figuração de novela, retendo de cada um o cachê de R$100,00 pela participação sem que eles sequer saibam que tinham direito a ele. Empolgados, os agenciados gravam a participação na novela e voltam pras suas cidades crentes que estão no melhor lugar do mundo. Aí pagam mais book, pagam mais cursos internos e nunca pegam um trabalho real na prática. É como a revendedora de produtos de beleza que é obrigada a comprar uma caixa de perfume sem saber que vai ter cliente pra vender. Só que no caso dos agenciados, eles pagam pela oportunidade de um dia serem vistos por alguém.


Há também um estratégia muito comum em agências e produtoras de pequeno porte... Elas decretam falência quando acionadas por um órgão fiscalizador. E quando a falência é legalmente decretada, os R$1.500,00 que o artista iniciante gastou jamais voltarão à sua conta. Passa-se alguns meses, os donos da agência fake criam outro nome, compram seguidores e os perfis já começam à ativa com os seus 33 mil fãs. Percebe que é um ciclo sem fim super rentável para quem é o dono do empreendimento?


Observe também algo peculiar... Todo dono de agencia aparece ostentando muito dinheiro nas redes. São muitas viagens internacionais, fotos com famosos, closes em taças de vinho. Isso também é estratégia da pirâmide. Se quem quer um lugar ao sol vê outra pessoa próxima a ele nadando em riqueza, isso gera a vontade de também estar com essas pessoas. É a associação como combustível do pertencimento. E dá-lhe mais golpe!


E quanto aos agenciadores que procuraram os artistas iniciantes no Instagram? O que acontece a eles?


Nada! Eles não são funcionários, eles não representam a empresa, eles estavam apenas em caráter de teste... Infelizmente, pra eles a vida também não é fácil. Assim como aquela moça na porta do shopping que só receberá a comissão caso 50 pessoas topem fazer o cartão da loja ou comprar o chip pré-pago, ela muda de trabalho em busca de algo que possa ajudá-la momentaneamente.


"Nós temos essa profissão cheia de sonhos e tem pessoas que brincam demais com nossos sonhos. Uma agência séria não vai cobrar para agenciar, pois se tem um fluxo bom de trabalho e há um piso salarial acima do preço de tabela, ela vai conseguir se manter em cima da porcentagem dos atores. 20% para a agência e o restante (80%) para os atores. Sobre o book, isso é fato! É preciso ter fotos profissionais, mas tem agências que cobram o valor desse book com taxa de agenciamento inclusa. Tem que ficar esperto!", comenta Mari Venâncio, idealizadora da Garalhufa, em vídeo publicado nas redes sociais.





"Se você tiver que entrar numa agência e pra entrar nessa agência tem pagar taxa de inscrição, tem que fazer book, tem que fazer curso, foge dessa agência. Provavelmente não é uma agência séria.", comenta o ator e apresentador Gedson Castro, que auxilia mães de crianças e adolescentes que ingressam no mercado de trabalho audiovisual.


Agências sérias não utilizam tais protocolos. Elas agenciam o artista e fazem acordos com ele. Como são esses acordos?


1 - A cada indicação e aprovação desse artista num trabalho, a agência fica com 10% a 20% do cachê. Essa é uma prática comum e justa.


2 - A agência não cobra a taxa de agenciamento de 10% a 20%, mas no primeiro trabalho do agenciado, retém um valor maior do cachê. Não é muito comum, mas acontece.


3 - Se a agência tem clientes fixos que confiam nela e sempre a requisitam, ela cobra uma taxa menor do agenciado, já que é sempre chamada para prestar esse serviço.


Na dúvida, pense nessa máxima: Quem quer trabalhar quer receber. Quem quer receber, não deve pagar por isso.


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