top of page

NO MÊS DA VISIBILIDADE TRANS, GI MONTEIRO REALIZA SUA PRIMEIRA EXPOSIÇÃO INDIVIDUAL

A mostra apresenta um conjunto de pinturas, desenhos, tecidos, esculturas, fotografias e instalações que realizaram uma reparação histórica de justiça social para corpos negros e trans

Gi Monteiro - Foto de Pedro Bessa
Gi Monteiro - Foto de Pedro Bessa

O Mês da Visibilidade Trans é um período criado para reconhecer, valorizar e difundir a vida de pessoas trans e travestis, que historicamente foram silenciadas, excluídas de direitos e afastadas dos espaços de poder e de criação. No mundo da arte, essa visibilidade é fundamental porque a arte constrói imaginários, molda formas de ver a realidade, a identidade e o futuro, e, por isso mesmo, não pode continuar reproduzindo apagamentos. Dar destaque para artistas trans nesse mês é um ato político e necessário: não é inclusão simbólica, mas reparação histórica, reconhecimento de talentos que sempre existiram e enfrentamento direto das desigualdades que estruturam o campo cultural. Tornar artistas trans visíveis amplia a arte, fortalece a democracia cultural e afirma que não há criação verdadeiramente livre enquanto certos corpos seguirem sendo invisibilizados.


O mês da visibilidade trans evidencia disputas políticas cotidianas em torno do livre acesso e do exercício pleno de direitos por pessoas dissidentes de gênero, como eu”, afirma Gi Monteiro.


No dia 13 de janeiro, das 18h às 21h, na Cave, inaugura “Céu da boca da noite”, primeira exposição individual da artista Gi Monteiro, travesti negra, nordestina e periférica que inscreve no tempo um fazer em arte como ferramenta política, para relembrar a relação que corpos dissidentes construíram com o mistério. Para isso, a exposição reúne um conjunto de pinturas, desenhos, tecidos, esculturas, fotografias e instalações que apresentam a pesquisa da artista sobre o escuro como possibilidade poética de liberdade.


A flor do mandacaru (cacto típico do sertão nordestino, que resiste a ambientes de aridez extrema) só brota no escuro da noite. É no cair do sol e no levantar da lua que algumas flores encontram no escuro um lugar de refúgio, proteção e fertilidade. E, assim como as plantas, os corpos negros e trans também encontraram no escuro um lugar de liberdade. Foi no escuro da noite que pessoas negras escravizadas criaram rotas de fuga e alternativas de liberdade através de motins e festas de terreiro. Também é no escuro onde travestis, que nas festas e casas noturnas eram chamadas pelo nome de flor “Damas da noite”, saem na penumbra em busca de sustento, uma vez que são historicamente excluídas da sociedade e dos ambientes formais de trabalho.


Na obra de Gi Monteiro, o escuro não é ausência de luz, mas sim abundância de novas possibilidades de vida. Indo na contramão da tradição moderna, colonial e iluminista que acreditava na razão como uma luz que iluminava os objetos, tornando-os visíveis e transparentes ao controle do sujeito, a artista investiga o escuro como uma anti-matéria do mundo, isto é, como aquilo que foge da colonialidade, justamente porque é imprevisível, incognoscível e incomensurável. O escuro desmorona a soberania da visão e ativa outras sensorialidades, inventando assim novas formas de se relacionar com o mundo. Por isso, o escuro profundo é a gestação do impossível e o reencantamento do real.


A artista promove uma recusa às demandas do sistema neoliberal das artes, que constantemente exige de artistas minoritários a busca por visibilidade e representatividade. Em vez do visível, a artista reivindica o seu direito ao invisível, ao escuro e ao mistério. Em vez da representação, a artista reivindica o seu direito ao irrepresentável, ao incontrolável e ao opaco. Desse modo, a artista transforma o abstracionismo em uma máquina política de desobediência poética aos imperativos coloniais que cobram de artistas minoritários uma produção pautada na figuração e nas narrativas de violência”, afirma Lucas Dilacerda, que assina a curadoria.

Foto: Jorge Silvestre
Foto: Jorge Silvestre

Nas obras de Gi Monteiro, o abstracionismo não é apenas um movimento estético, mas também um movimento político que desorganiza a percepção e destitui a centralidade das formas visíveis da luz (figura) para dar vazão às forças invisíveis da sombra (deformação). As suas imagens não se formam na retina, elas se desmancham no nosso olhar, elas desaparecem no mesmo instante em que se manifestam. Cada obra sua é um retrato da vida em estado de germinação, é um mapa das forças invisíveis que atuam no corpo e que são responsáveis pela fertilidade, crescimento e vitalidade. Para algo nascer, é preciso atravessar contrações intensas. Por isso, suas composições plásticas são formadas por curvas, espirais, contorções, expansões, retrações e todos os movimentos intensos que acontecem para que um grão de semente consiga se transmutar em flor. Em suas imagens, as linhas e as cores grafam os movimentos da liberdade como quem desenha a rota do voo de um pássaro no céu ou o caminhar das ondas no mar.


Assim como os processos de transição de gênero e de insubmissão negra, minha prática se constrói no próprio fazer, na insistência que afirma a vida como movimento. A abstração opera como esse território instável e em formação. As nuvens aparecem como imagens de liberdade, sem forma fixa, migrantes e sem fronteiras, em oposição à rígida violência paralisante destinada a corpos negros, trans, periféricos, nordestinos e do sul global. O escuro, a observação das nuvens, a abstração e as práticas negras e trans que atravessam meu trabalho anunciam outras possibilidades de existência e de modos de produção artística”, afirma Gi.


Gi Monteiro é uma encruzilhada de mil almas (negras, indígenas, travestis e nordestinas), e o seu trabalho é uma reparação histórica de justiça social para corpos dissidentes, fazendo de sua obra uma reivindicação do direito à íntima escuridão com o mistério.


PROGRAME-SE

Abertura: Terça, 13 de janeiro de 2026, 18h às 21h

Endereço: Rua Pereira Valente, 757 - Casa 03 - CEP: 60160-250

(Travessa Ana Benevides)

Entre as Ruas Leonardo Mota e Vicente Leite.


Período em cartaz:

13 de janeiro de 2026 a 28 de fevereiro de 2026


Horário de funcionamento:

Terça a sexta - 13h às 19h

Sábado - 10h às 14h


QUEM FAZ

Artista: Gi Monteiro

Curadoria: Lucas Dilacerda

Curadoria Adjunta: Wes Viana

Projeto Gráfico: Alifa Maria

Assistência de Criação: Antônio Breno, Paloma Monteiro, Rafael Aires

Direção: Pedro Diógenes

Produção: Dharana Vieira

Comunicação: Pedro Bessa

Fotos de Vista: Jorge Silvestre

Montagem: Edison Filho, Mateus Oliveira e Amanda Melo [OGGIN LTDA]




Comentários


oie_transparent (1)_edited.png

© 2019 - Conteúdo - Portal de Cultura e Arte de Brasília e do Brasil

 Editado por artistas, jornalistas e colaboradores       I     Web Designer: Caio Almeida

  • Instagram B&W
bottom of page