ESPETÁCULO "CALANGO" EVOCA MEMÓRIA, RESISTÊNCIA E DIREITO À CIDADE
O Coletivo Arar apresenta novo espetáculo inspirado no Cerrado e na vida brasiliense

Quem vive em Brasília certamente já se comparou a um pequeno lagarto que habita o Cerrado e resiste ao calor e à secura do clima do Planalto Central. Dessa identificação entre o animal e o brasiliense parte Calango, novo espetáculo do Coletivo Arar - Afeto, Resistência e Arte.
Interpretado por Fábio Aurélio Garcia, com dramaturgia e direção de Vinícius Ávlis, o monólogo transforma a figura do homem-bicho em metáfora sobre moradia, pertencimento, desigualdade social e direito de sonhar. A peça será apresentada nos dias 6 e 7 de novembro, às 20h no CREAS da Cidade Estrutural. A sessão de sexta-feira terá acessibilidade em audiodescrição e Libras - Língua Brasileira de Sinais. Ambas as apresentações têm entrada gratuita. Os ingressos já estão disponíveis.
Entre memórias pessoais e feridas coletivas, Calango ergue a voz para reivindicar humanidade. O personagem transita entre o humano e o animal, enquanto vive experiências de violência, luta e resistência que atravessam periferias do Distrito Federal. Em sua trajetória, deseja permanecer, construir uma casa, ser feliz e, sobretudo, chorar. Desejos aparentemente simples, mas que revelam a dimensão política de uma existência marcada pela insegurança e pela luta cotidiana para conquistar direitos fundamentais.
RESGATE HISTÓRICO - A dramaturgia de Calango traz como referência a Operação Tornado, ocorrida em 1998 na Cidade Estrutural-DF. A ação policial, marcada pela violência contra moradores da região, ficou associada a um dos episódios mais traumáticos da história da ocupação. Na época, famílias que viviam na área enfrentaram ameaças de remoção, derrubadas de barracos de madeirite e restrições ao acesso de materiais e mantimentos. Os confrontos culminaram em mortes e deixaram marcas profundas na memória da comunidade.
A aproximação com essa história surgiu durante a pesquisa de Vinícius Ávlis sobre o território onde passou parte da infância e da adolescência. O dramaturgo, que viveu por muitos anos na Estrutural, soma sua experiência pessoal à investigação sobre as relações entre território, desigualdade e pertencimento para construir o espetáculo. “Além de ter um terreno, uma casa para chamar de sua, existe a possibilidade de construir um espaço de memória, pertencimento e sonhos”, explica Ávlis. Para ele, a casa não se resume à estrutura física que protege do sol e da chuva. É também o lugar onde se constroem afetos e os desejos de futuro encontram espaço para existir.

A construção do personagem de Fábio Aurélio Garcia parte da relação entre o comportamento do calango e experiências humanas de sobrevivência. Um corpo entre o homem e o bicho: os movimentos rápidos, a atenção constante e a prontidão para fugir ou reagir orientam a pesquisa corporal que foi desenvolvida pelo ator. Aos poucos, o personagem revela sua natureza híbrida, oscilando entre a figura humana e a animalidade. O diretor Vinícius Ávlis explica que toda preparação se relaciona à reflexão central sobre os direitos fundamentais: “até que ponto a nossa humanidade também é colocada em xeque quando nos são tratados como animais?”; provoca.
A origem do espetáculo também está ligada à trajetória de Fábio. Durante uma oficina artística em Portugal, o ator desenvolveu uma experimentação cênica a partir da frase “Eu sou um calango do Cerrado brasileiro, latino-americano”. A imagem abriu caminho para uma reflexão sobre identidade, periferia e as experiências de quem vive à margem dos espaços de poder.
Para Fábio, o personagem reúne figuras que fazem parte de seu cotidiano e de suas memórias: moradores, trabalhadores, comerciantes, motoristas, cobradores de ônibus que enfrentam diariamente as dificuldades da vida urbana. São pessoas que resistem, trabalham e seguem em frente, mesmo quando seus direitos são ameaçados. “Eu construo o Calango a partir do texto que é muito potente e expande meus desejos para gerar essas imagens em mim mesmo. De alguma forma, elas ressoam no meu corpo", conta Garcia.
DIREITO DE SENTIR - Além das questões sociais e territoriais, Calango aborda a dificuldade de expressar sentimentos. A incapacidade de chorar se relaciona não apenas à secura característica do clima brasiliense, mas às expectativas sociais impostas aos homens, frequentemente pressionados a esconder sua vulnerabilidade. Ao aproximar a aridez do Cerrado à secura emocional, o espetáculo questiona uma masculinidade que restringe os afetos e impede o reconhecimento da própria fragilidade. Chorar, nesse contexto, deixa de ser apenas uma reação individual e se transforma em gesto de humanidade.
Para além da denúncia, Calango ressalta a força dos desejos. Ele quer ter uma casa, quer construir memórias, proteger quem ama e imaginar um futuro possível. São aspirações que encontram eco na experiência de milhares de pessoas que lutam pelo direito de permanecer nos territórios onde construíram suas vidas.

O que ninguém deveria ser capaz de tirar de uma pessoa? Para Calango, a resposta está no direito de existir com dignidade, ter um lar, circular pela cidade, sentir. “Às vezes, o que a gente precisa é continuar sonhando, e eu acho que isso é muito, muito forte", provoca Fábio.
Com Calango, o Coletivo Arar propõe um encontro entre memória e reflexão política por meio do teatro. Ao recuperar uma história de violência do Distrito Federal e aproximá-la de questões ainda presentes no cotidiano brasileiro, o espetáculo convida o público a olhar para as periferias não apenas como espaços de carência, mas como territórios de criação, pensamento crítico e resistência.
PROGRAME-SE
CALANGO - Espetáculo do Coletivo Arar
Data: 06 e 07 de novembro, sexta e sábado às 20h
Local: CREAS - A.E. 09, St. Central - Cidade Estrutural
Classificação indicativa - 14 anos
Ingressos gratuitos: https://www.sympla.com.br/evento/calango/3627969
*Sessão de sexta-feira às 20h com acessibilidade em Audiodescrição e Libras





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