top of page

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS RECEBE EXPOSIÇÃO EM HOMENAGEM A "GRANDE SERTÃO: VEREDAS", LANÇADO HÁ 70 ANOS

Mostra da artista visual Graça Craidy tem texto do acadêmico Eduardo Giannetti, atual ocupante da cadeira que foi de João Guimarães Rosa, autor do livro e imortal da ABL

Craidy ao lado de tríptico que mostra bando de jaguncos - Foto: Carlos Souza
Craidy ao lado de tríptico que mostra bando de jaguncos - Foto: Carlos Souza

A Academia Brasileira de Letras recebe a exposição “Grande Sertão” para comemorar os 70 anos de lançamento da obra-prima do imortal da ABL João Guimarães Rosa, “Grande sertão: veredas”. A abertura da mostra, na qual a artista visual Graça Craidy retrata os principais personagens do romance surgido em 1956, será na terça-feira (31/03), às 17h, no 1º andar do Palácio Austregésilo de Athayde, na Av. Presidente Wilson, 203, Centro, Rio de Janeiro. A visitação se estende até 29 de maio.

 

O atual ocupante da Cadeira nº 2 da academia, Eduardo Giannetti, escreveu um texto inédito (leia a íntegra ao final), especialmente para a exposição, pelo fato de Guimarães Rosa ter sido seu antecessor na posição.

 

“Em tempos de pressa virótica, atenção fracionada e estupor digital, Grande sertão completa 70 anos mais vivo – e necessário – que nunca. Poesia ou prosa? Erudito ou popular? Culto ou chulo? Fiel ou fabular? Sério ou lúdico? Jorro ou cálculo? No épico sertanejo de Guimarães Rosa, os opostos não se opõem. Como na vida, misturam-se”, sustenta, no primeiro parágrafo de seu texto, o titular da cadeira que foi fundada por Coelho Neto e que tem como patrono o poeta Álvares de Azevedo.

 

Personagens

A artista apresenta 17 quadros e um tríptico, em acrílica sobre tela e sobre papel. Nas obras, os principais personagens do livro ganham feições físicas inspiradas pela narrativa, inclusive levando em conta a personalidade e o comportamento traçados pelo autor. Entre os personagens retratados estão, por exemplo, Riobaldo, Diadorim, Joca Ramiro, Hermógenes, Zé Bebelo, Manuelzão, Otacília, Nhorinhá, Sô Candelário, Os Ramiros, Medeiros Vaz.

 

O próprio Guimarães Rosa (1908/1967), mineiro de Cordisburgo, aparece, em uma das pinturas, embrenhando-se no Cerrado, a cavalo, junto com vaqueiros - a excursão de fato aconteceu, na fase em que o escritor coletava informações para escrever a obra.

 

Natural de Ijuí (RS) e radicada em Porto Alegre, Graça, de 74 anos, não só é uma leitora constante do romance como fez um curso – “Travessia” - sobre o livro, debatido durante meses com a professora da USP Maria Cecilia Marks, especialista na obra literária. A artista gaúcha também pesquisou em teses, monografias e ensaios sobre a ficção e assistiu algumas vezes ao monólogo “Riobaldo”, protagonizado pelo ator carioca Gilson de Barros, com direção de Amir Haddad.

 

“Me sinto muito honrada por expor na ABL. Agradeço à academia, em especial ao acadêmico Antonio Carlos Secchin, Secretário-Geral e coordenador do Ciclo de Conferências Vida de Artistas por acolher outra linguagem artística na homenagem a uma obra literária marcante e ao seu grande autor”, diz a artista.

 

“Espero que os visitantes se encantem com a história em quadros do meu ‘Grande Sertão’ particular, expressionista, apaixonado, de cores turvas, ternas e terrosas. Em cada personagem, cena, gesto, o meu gentil convite para despertar nas pessoas o desejo de ler esse monumental romance”, acrescenta ela.

 

Releitura do protagonista e narrador Riobaldo na velhice - Obra: Graça Craidy
Releitura do protagonista e narrador Riobaldo na velhice - Obra: Graça Craidy

“Experiência transpsíquica”

O livro, escrito por Rosa quando morava na Rua Francisco Otaviano, 33, ap. 501, em Copacabana, teve seus originais entregues à editora José Olympio em fevereiro de 1956. Em carta a seu colega de Itamaraty Azeredo da Silveira, o escritor e diplomata relatou: “Passei três dias e duas noites trabalhando sem interrupção, sem dormir, sem tirar a roupa, sem ver cama: foi uma verdadeira experiência transpsíquica, estranha, sei lá, eu me sentia um espírito sem corpo, pairando, levitando, desencarnado – só lucidez e angústia. Passei dois anos num túnel, um subterrâneo, só escrevendo, só escrevendo, escrevendo eternamente”.

 

O romance chegou às livrarias em meados de julho daquele ano. Aclamado pela crítica, foi escolhido como o melhor livro de 1956, venceu o Prêmio Machado de Assis do Instituto Nacional do Livro, o prêmio Carmen Dolores Barbosa, o prêmio Paula Brito e, em junho de 1961, o Prêmio Machado de Assis da ABL pelo conjunto da obra. “Grande sertão: veredas” constou da lista dos "100 melhores livros de todos os tempos" organizada, em 2002, pelo Clube do Livro da Noruega (Norwegian Book Club). Destacou-se principalmente por suas inovações linguísticas.

Releitura da personagem Diadorim morta - Obra: Graça Craidy
Releitura da personagem Diadorim morta - Obra: Graça Craidy

Íntegra do texto do acadêmico Eduardo Giannetti, atual ocupante da Cadeira nº 2, que foi de João Guimarães Rosa na ABL:

 

“Em tempos de pressa virótica, atenção fracionada e estupor digital, Grande sertão completa 70 anos mais vivo – e necessário – que nunca. Poesia ou prosa? Erudito ou popular? Culto ou chulo? Fiel ou fabular? Sério ou lúdico? Jorro ou cálculo? No épico sertanejo de Guimarães Rosa, os opostos não se opõem. Como na vida, misturam-se.

 

A prosa poética rosiana instaura um universo linguístico todo seu. Ela não se reduz a instrumento a serviço de uma narrativa, mas pertence à realidade sertaneja por ela recriada com a mesma potência, vivacidade e força dos seus personagens. O dito e o modo de dizer em uníssono: acorde perfeito. O sertão feito verbo.

 

Grande sertão mira o esquivo: o que não se deixa falar – e cala. O ponto exato em que o singular absurdo de cada consciência individual, no que ela tem de mais intratável, caprichosa e incomunicável, rompe o dique, vence o estreito e roça a outra margem. A visão-lampejo do incomum nas veias da vida comum. Em Rosa, o impulso criador está a serviço de um propósito definido: o reencantamento do mundo pela presença do mistério. O trêmulo júbilo na alma do leitor”.


A prosa poética rosiana instaura um universo linguístico todo seu. Ela não se reduz a instrumento a serviço de uma narrativa, mas pertence à realidade sertaneja por ela recriada com a mesma potência, vivacidade e força dos seus personagens. O dito e o modo de dizer em uníssono: acorde perfeito. O sertão feito verbo.

 

Grande sertão mira o esquivo: o que não se deixa falar – e cala. O ponto exato em que o singular absurdo de cada consciência individual, no que ela tem de mais intratável, caprichosa e incomunicável, rompe o dique, vence o estreito e roça a outra margem. A visão-lampejo do incomum nas veias da vida comum. Em Rosa, o impulso criador está a serviço de um propósito definido: o reencantamento do mundo pela presença do mistério. O trêmulo júbilo na alma do leitor”.


PROGRAME-SE

Exposição "Grande Sertão"

Artista: Graça Craidy

Local: Academia Brasileira de Letras

Endereço: Av. Presidente Wilson, 203, Centro, Rio de Janeiro -Palácio Austregésilo de Athayde, 1º andar

Abertura: 31/03 (terça-feira), 17h

Visitação: de segunda a quinta-feira, das 10h às 18h, até 29 de maio 

Entrada franca

Fotos das obras: Divulgação da artista

Foto da artista com tríptico: Carlos Souza

Comentários


oie_transparent (1)_edited.png

© 2019 - Conteúdo - Portal de Cultura e Arte de Brasília e do Brasil

 Editado por artistas, jornalistas e colaboradores       I     Web Designer: Caio Almeida

  • Instagram B&W
bottom of page