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SE NANY PEOPLE JÁ CONVERSA COM O BRASIL, POR QUE A PUBLICIDADE AINDA NÃO A ESCUTA?

há 16 minutos
3 min de leitura

Artista conversa há décadas com a família brasileira e cita espontaneamente marcas e produtos que fazem parte de sua vida, mas continua fora das grandes campanhas

Retrato da atriz, humorista e apresentadora Nany People, que aparece sorrindo, com uma das mãos levantadas e cabelo vermelho volumoso.
Nany People afirma que não se considera injustiçada, mas mal aproveitada por um mercado que ainda não reconhece todo o seu potencial. Foto: Drmarcomelo/Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Durante uma participação no “Que Mais? Podcast”, Nany People falava sobre trabalho, produção teatral e a necessidade de continuar pagando as contas quando resumiu: “Produzo as minhas peças com Nossa Senhora do cheque especial. Viva o Bradesco.”


A frase provocou risadas, mas também criou uma publicidade espontânea. Nany citou o banco porque ele realmente faz parte de sua história e das soluções financeiras às quais recorreu para manter a carreira.


Se existe uma relação tão natural entre artista, produto e público, por que ela ainda não foi transformada em publicidade?


NANY FALA DE DINHEIRO A PARTIR DA PRÓPRIA EXPERIÊNCIA

Nany já contou que refinanciou um carro para divulgar uma peça e recorreu a empréstimos quando o trabalho diminuiu. Durante a pandemia, usou suas reservas, conseguiu uma linha de crédito e quitou em nove meses um financiamento previsto para durar mais de três anos.


Quando foi criticada por admitir que havia feito um empréstimo, respondeu que conseguir crédito demonstrava justamente que possuía nome limpo e credibilidade em seu CPF.


Ela não romantiza dívidas. Fala sobre juros, antecipação de parcelas, organização financeira e o crédito como uma ferramenta para atravessar momentos difíceis. É exatamente o tipo de relato verdadeiro que as campanhas procuram quando querem parecer próximas da vida real.


A relação com o Bradesco ainda guarda uma história importante. Antes de possuir documentos com o nome Nany People, ela enfrentava bloqueios na conta porque sua voz não correspondia ao nome de registro presente no sistema. Um gerente buscou uma solução e o banco emitiu um cartão com seu nome profissional.


Nany levou o cartão ao SBT e conseguiu que a emissora também passasse a utilizar Nany People em seu registro funcional. Muito antes de o nome social se tornar uma discussão comum nas empresas, o Bradesco ajudou a reconhecer sua identidade.


ELA JÁ CONVERSA COM A FAMÍLIA BRASILEIRA

Na mesma entrevista em que brincou com o cheque especial, Nany afirmou que não se considera injustiçada, mas “mal aproveitada” pelo mercado.


A artista contou que chegou a ser considerada para uma publicidade de arroz depois de participar de “A Fazenda”. A contratação não avançou porque, segundo seu relato, alguém questionou se uma mulher trans seria adequada para anunciar um produto ligado à mesa da família brasileira.


O episódio mostra que o obstáculo nunca foi falta de talento, reconhecimento ou comunicação com o público. Nany foi repórter de Hebe Camargo, passou por programas populares, novelas, realities, humorísticos e espetáculos que percorrem o país. Ela já entrou na casa de diferentes gerações e aprendeu a conversar diretamente com elas.


Ainda assim, parte da publicidade parece enxergá-la apenas quando o assunto é diversidade. Nany pode ser convidada para falar sobre identidade, preconceito ou superação, mas não é lembrada com a mesma facilidade para vender arroz, banco, seguro, supermercado ou qualquer outro produto presente na rotina das pessoas.


NANY NÃO PRECISA SER ENCAIXADA EM UMA CAMPANHA. A PUBLICIDADE PRECISA AMPLIAR O OLHAR


O mercado publicitário afirma procurar autenticidade, identificação e pessoas capazes de estabelecer uma relação verdadeira com o público. Nany People reúne essas características, mas ainda parece ser enxergada primeiro como uma mulher trans e somente depois como artista, comunicadora e possível garota-propaganda.


Essa limitação aparece quando sua presença precisa ser justificada por uma campanha sobre diversidade. Para anunciar arroz, banco, supermercado, seguro ou qualquer produto cotidiano, uma mulher cis não precisa explicar por que pertence àquela história. No caso de Nany, o mercado ainda parece procurar um motivo específico para incluí-la.


O relato sobre a publicidade de arroz mostra isso com clareza. Mesmo conhecida nacionalmente e apresentada por Hebe Camargo ao “sofá da família brasileira”, sua participação teria sido questionada porque uma mulher trans não seria considerada adequada para representar a mesa dessa mesma família.


A discussão não é sobre encontrar uma campanha feita sob medida para Nany. É sobre reconhecer que ela pode participar de campanhas que não tenham identidade de gênero como assunto. Possui alcance popular, humor, credibilidade e experiência para falar com diferentes gerações sobre qualquer produto.


Nany não precisa provar que cabe na publicidade. É o mercado publicitário que ainda precisa explicar por que demorou tanto para enxergá-la.


ENTREVISTAS CITADAS

“Nany People - Inteligência Ltda. Podcast #066

“Nany People - Venus Podcast #17

“Nany People sem filtros - Que Mais? Podcast”


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