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SE HÁ INVESTIMENTO NO SETOR CULTURAL, POR QUE TANTOS ARTISTAS PADECEM SEM RECURSOS?

Vocês também têm a impressão de que a conta não está batendo? O governo diz que há muito incentivo à cultura, mas, na prática, artistas não estão conseguindo pagar o aluguel e as contas do mês. O que está acontecendo de verdade?

Arte sobre foto de Robson Cesco

Nos últimos meses tem sido recorrente o pedido que artistas estão fazendo nas redes sociais em busca de oportunidade de trabalhos. Profissionais capacitados, com relevante trajetória na cena cultural, não estão conseguindo enxergar uma boa solução para os problemas enfrentados semana a semana. Quem participa de produções audiovisuais ainda consegue dar um jeito (mesmo com redução drástica do valor de base adotado pela FVG), mas e quem faz teatro e produção cultural?


Os Fóruns e Encontros de Cultura apresentam mimos para a classe, dão a oportunidade de representarem seus nichos, de pegarem o microfone para falarem de suas mazelas e expectativas ao lado de seus ídolos, mas não solucionam o que é básico: falta comida de qualidade, meios de locomoção, dinheiro para o aluguel e manutenção de dignidade mínima daqueles que fazem a cultura e a economia girar. Artistas têm migrado de profissiões mesmo com currículos fantásticos. Não que haja profissão mais ou menos importante (este não é o caso), mas é que é notória a mudança no padrão de vida de muita gente.


Recentemente, o Edital da Lei Paulo Gustavo apresentou seus resultados e tudo caiu como um grande banho de água fria para quem produz arte. Somente no DF, mais de 60% dos projetos foram desclassificados por causa de exigências que já haviam sido sanadas e reparadas na elaboração de outros editais, como a exigência da contrapartida, por exemplo. Uma Lei que surgiu como auxílio aos trabalhadores das artes se tornou mais um sistema editalizado excludente, exigindo de quem já não tem muito a oferecer depois de um governo contra o setor a obrigação de oferecer contrapartida social. Foram muitos os relatos nas redes de artistas indignados com pareceres equivocados sobre as propostas. A resposta tardia dos recursos só mostrou que não há nada de novo no front. Enquanto secretários de várias pastas do governo desfilam em eventos e gravam seus vídeos de tik tok dizendo que "a cultura está a todo vapor", que "a economia está a todo vapor", que "a saúde está a todo vapor" a realidade segue sendo bem diferente. Vá num posto de saúde agora e veja se há vacina disponível! Não vai ter! Vá no CRAS ver se o seu pedido de aposentadoria está em andamento? Vai estar parado! Vá no Complexo Cultural de sua cidade e veja se os equipamentos de iluminação estão funcionando! Não vão estar!


Ainda em Brasília, as poucas vagas dos Editais FAC Multicultural e FAC Audiovisual só revelam que há projetos grandiosos e com pontuação expressiva que não são contemplados porque só 4 ou 5 garantem a aprovação. É decepcionante ler o Diário Oficial e ver que, mais uma vez, 300 proponentes disputaram um lugar numa categoria que oferece apenas 6 de 100 mil. A pontuação que antes chega a 100 já mudou sua nota de corte para 120. Logo logo chega a 200 porque os projetos são ótimos... o que não acompanha a instrumentalização de quem faz os projetos é o próprio sistema da cultura brasileira


Artistas não querem ver vídeo de tik tok dizendo que a cultura está de volta, pois quando ela volta, de fato, não há porque publicizar como feito excepcional... ela acontece por si só, com todo o vigor que sempre teve. O problema é que desde a pandemia, nossa pasta da cultura ainda anda muito mal. Ela é feliz nos simpósios, nas coletivas de imprensa, mas não na vida real de quem vive e depende do bom funcionamento dela.


Se antes havia a desculpa do isolamento social, que afetou a todos entre 2020 e 2021, qual é a desculpa agora? Temos um governo federal de esquerda, progressista e que luta por maiores investimentos no setor, mas por que, na prática, isso não parece ser real? Será um entrave entre as secretarias e suas gestões de centro-direita? Será lobby como aquelas estratégias de dizer que há muito investimento só para conseguir futuros mecenatos reais de empresas privadas? Ou será que estamos todos esperando um Godot que, definitivamente, numa virá?


As notícias correm no Distrito Federal e elas já apontam uma remota e desastrosa interferência neopentecostal no setor cultural local para 2024. Segure-se na poltrona porque se o cenário não está bom, saiba que pode piorar!


Com o fim do carnaval e dos festejos da semana santa, há a esperança de que os projetos possam começar a entrar em suas fases de pré-produção, mas o rombo causado pelo desemprego de dezembro, janeiro, fevereiro e março faz com que os pagamentos futuros sequer supram os juros do período não trabalhado de tantos agentes culturais competentes. Se Páscoa é renovação, que essa renovação venha em forma de notas emitidas, oportunidade de trabalho, equiparação salarial e dignidade humana. Menos vídeos animados de Tik Tok nas Secretarias do Governo e mais empenho nas contas de projetos já aprovados... É disso que o artista precisa!

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