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“ROQUE SANTEIRO” VOLTA À GLOBO E MOSTRA QUE, 40 ANOS DEPOIS, SÓ FALTA O LOBISOMEM

há 11 minutos
5 min de leitura

Primeiro capítulo da novela reúne exploração política da fé, submissão do poder público aos mais ricos, tentativa de controlar a imprensa, falso moralismo e obra pública para valorizar propriedade particular

Logotipo de “Roque Santeiro” em verde-esmeralda, criado para celebrar os 40 anos da novela na Edição Especial da TV Globo.
Aos 40 anos, “Roque Santeiro” ganhou uma identidade visual em tons de esmeralda para marcar as quatro décadas de uma novela que continua surpreendentemente atual. TV Globo / Divulgação

   

Esta conversa está sendo útil até agora?


Quando a TV Globo anunciou a volta de “Roque Santeiro” na faixa Edição Especial, imaginei que seria uma boa oportunidade para rever esse clássico, afinal, sempre bradei aos quatro cantos que essa é a “novela da minha vida”.


Não esperava encontrar um resumo tão eficiente da história política recente do Brasil.


Exibido originalmente em 1985, o primeiro capítulo apresenta uma cidade movida por um mito religioso, um prefeito obediente ao homem mais rico da região, uma autoridade preocupada com o que a imprensa publica, negociações com deputados, dinheiro público, interesses particulares e um conservador que flexibiliza seus princípios sempre que a situação exige.


Se atualizassem a qualidade da imagem e os figurinos, poderia passar por uma produção contemporânea.


De tudo o que existe no universo fantástico de “Roque Santeiro”, somente o lobisomem ainda não apareceu no noticiário. Pelo menos até agora.


A FÉ CRIOU UM MITO E O MITO VIROU MODELO DE NEGÓCIO

Asa Branca construiu sua identidade em torno de Roque Santeiro, artesão que teria morrido ao defender a cidade do bandido Navalhada.


Transformado em mártir, Roque passou a receber homenagens, promessas e a autoria de milagres. O detalhe é que a fé dos moradores também criou uma importante fonte de renda para o município.


Romeiros e turistas chegam à cidade interessados na história do suposto santo. Eles compram medalhas, imagens, lembranças e movimentam o comércio local. A economia de Asa Branca passou a depender de uma narrativa que ninguém tem muito interesse em questionar.


A novela mostra como a fé popular pode ser apropriada por quem deseja conquistar influência, dinheiro ou poder político. O mito não pertence mais apenas aos devotos. Ele também sustenta comerciantes, autoridades e todos aqueles que aprenderam a lucrar com sua manutenção.


Quatro décadas depois, continuamos vendo figuras públicas usarem símbolos religiosos para construir autoridade, receber uma espécie de certificação moral e transformar a devoção das pessoas em capital político.


O PREFEITO GOVERNA, DESDE QUE SINHOZINHO MALTA AUTORIZE

Florindo Abelha é o prefeito de Asa Branca. Pelo menos oficialmente. Na prática, boa parte das decisões passa por Sinhozinho Malta, o fazendeiro mais rico e influente da cidade. O prefeito ouve seus pedidos, atende às suas vontades e procura não criar problemas com quem realmente controla a política local.


A situação parece distante até lembrarmos quantas decisões públicas continuam submetidas aos interesses de empresários, proprietários e grupos econômicos capazes de financiar campanhas, pressionar autoridades ou telefonar diretamente para quem ocupa o cargo.


SINHOZINHO QUER SER NOTÍCIA, MAS ESCOLHE A MANCHETE

Sinhozinho Malta demonstra grande preocupação com o que a imprensa publica a seu respeito, principalmente quando o assunto envolve o Imposto de Renda.


Ele procura saber o que está sendo comentado e tenta controlar a maneira como sua imagem será apresentada. Não deseja deixar de aparecer. Quer apenas garantir que as notícias sejam favoráveis.


Afinal, como ele mesmo explica: “Cada um tem o seu trabalho. Tem gente que é notícia e tem gente que não é notícia”. Sinhozinho pertence, naturalmente, ao primeiro grupo.


A frase revela uma vaidade que continua presente em muitas figuras públicas. Elas desejam entrevistas, capas, câmeras e atenção, mas tratam qualquer pergunta desconfortável como perseguição.


A imprensa é considerada importante quando publica elogios. Quando questiona negócios, impostos ou relações políticas, passa a ser vista como inconveniente e logo recebe rótulos como “imprensa falsa” ou “militante”.


CONSERVADOR NOS DISCURSOS, FLEXÍVEL NA VIDA PARTICULAR

Sinhozinho Malta se apresenta como defensor da moral e dos bons costumes. Sua vida pessoal, entretanto, segue regras um pouco diferentes.


Mesmo tendo uma amante, a Viúva Porcina, ele pretende oficializar o relacionamento apenas três meses depois da morte da esposa. Ao mesmo tempo, foi o próprio Sinhozinho quem solicitou que a prefeitura concedesse o alvará para o funcionamento de uma boate de strip-tease em Asa Branca.


Esse conservadorismo bastante seletivo também não ficou preso em 1985. O discurso moral costuma ser rígido quando serve para vigiar a vida dos outros e surpreendentemente adaptável quando interfere nos desejos de quem o pronuncia.


E, como acontecimentos recentes estampados na imprensa têm mostrado, até os desejos privados de quem se apresenta publicamente como “conservador” podem acabar envolvidos em relações de poder, dinheiro e negociações com banqueiros.


O AEROPORTO É PÚBLICO, MAS A VALORIZAÇÃO DAS TERRAS É PARTICULAR

No primeiro capítulo, Sinhozinho Malta retorna de uma viagem durante a qual conversou com amigos deputados para tentar liberar recursos destinados à construção de um aeroporto em Asa Branca.


A obra seria apresentada como um avanço para toda a cidade. No entanto, algumas pessoas começam a comentar que o fazendeiro deseja o aeroporto porque sua construção valorizaria as terras dele.


Sinhozinho não perde tempo elaborando uma justificativa muito sofisticada: “Ia ter que ser construído em algum lugar. Se for beneficiar alguém, que beneficie eu, que fui quem pariu a ideia.”

A lógica é simples: o dinheiro é público, a obra pertence à cidade e o maior benefício econômico fica com quem possui os terrenos próximos.


Qualquer semelhança com emendas negociadas entre amigos, obras escolhidas por conveniência política e investimentos públicos que valorizam patrimônios particulares não exige grande esforço de interpretação.


ATÉ O CINEMA PRECISA NEGOCIAR COM A PREFEITURA

Uma equipe de cinema também chega a Asa Branca para produzir um filme sobre Roque Santeiro.


O diretor procura o prefeito em busca de apoio financeiro para realizar a obra. Assim, o poder público é convidado a financiar uma produção responsável por contar justamente a história que sustenta o turismo, o comércio e a autoridade política da cidade.


A situação acrescenta outra discussão bastante atual ao capítulo: a relação entre cinebiografias de “mitos”, interesses políticos e financiamentos cuja origem do dinheiro nem sempre é apresentada com a mesma clareza da narrativa que chega às telas.


Ou, como talvez seja mais conveniente dizer, “financiamento privado”.


QUARENTA ANOS DEPOIS, SÓ ESTÁ FALTANDO O LOBISOMEM

“Roque Santeiro” é uma sátira política, religiosa e social. Seu exagero nunca teve a intenção de fugir da realidade, mas de torná-la mais visível. O problema é perceber que o primeiro capítulo continua funcionando sem grandes adaptações.


A exploração política da fé permanece atual. O poder econômico continua influenciando decisões públicas. Autoridades ainda tentam controlar a imprensa, conservadores continuam negociando os próprios princípios e obras financiadas com dinheiro público seguem valorizando interesses privados.


Até a tentativa de transformar uma narrativa conveniente em filme aparece logo na estreia.


Assisti ao capítulo esperando encontrar uma cidade fantástica construída por Dias Gomes e Aguinaldo Silva. Encontrei uma cidade fictícia que se parece desconfortavelmente com o Brasil real.


Depois de quatro décadas, “Roque Santeiro” voltou à TV e quase tudo ainda está acontecendo.


Só falta o lobisomem.



QUEM FAZ?

Autoria: Dias Gomes

Coautoria: Aguinaldo Silva

Colaboração: Marcílio Moraes e Joaquim Assis

Supervisão: Daniel Filho

Direção: Paulo Ubiratan, Jayme Monjardim, Gonzaga Blota e Marcos Paulo

Direção-geral: Paulo Ubiratan

Elenco principal: José Wilker, Regina Duarte, Lima Duarte, Yoná Magalhães, Fábio Jr., Lídia Brondi, Paulo Gracindo, Lucinha Lins, Cássia Kis, Armando Bógus e Ary Fontoura

Produção: TV Globo


PROGRAME-SE

“Roque Santeiro” - Edição Especial

Exibição: de segunda-feira a sábado, nas tardes da TV Globo

Horário previsto: a partir das 14h45, sujeito às alterações da programação local

Onde assistir à versão completa: Globoplay

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