“ROQUE SANTEIRO” VOLTA À GLOBO E MOSTRA QUE, 40 ANOS DEPOIS, SÓ FALTA O LOBISOMEM
Primeiro capítulo da novela reúne exploração política da fé, submissão do poder público aos mais ricos, tentativa de controlar a imprensa, falso moralismo e obra pública para valorizar propriedade particular

Esta conversa está sendo útil até agora?
Quando a TV Globo anunciou a volta de “Roque Santeiro” na faixa Edição Especial, imaginei que seria uma boa oportunidade para rever esse clássico, afinal, sempre bradei aos quatro cantos que essa é a “novela da minha vida”.
Não esperava encontrar um resumo tão eficiente da história política recente do Brasil.
Exibido originalmente em 1985, o primeiro capítulo apresenta uma cidade movida por um mito religioso, um prefeito obediente ao homem mais rico da região, uma autoridade preocupada com o que a imprensa publica, negociações com deputados, dinheiro público, interesses particulares e um conservador que flexibiliza seus princípios sempre que a situação exige.
Se atualizassem a qualidade da imagem e os figurinos, poderia passar por uma produção contemporânea.
De tudo o que existe no universo fantástico de “Roque Santeiro”, somente o lobisomem ainda não apareceu no noticiário. Pelo menos até agora.
A FÉ CRIOU UM MITO E O MITO VIROU MODELO DE NEGÓCIO
Asa Branca construiu sua identidade em torno de Roque Santeiro, artesão que teria morrido ao defender a cidade do bandido Navalhada.
Transformado em mártir, Roque passou a receber homenagens, promessas e a autoria de milagres. O detalhe é que a fé dos moradores também criou uma importante fonte de renda para o município.
Romeiros e turistas chegam à cidade interessados na história do suposto santo. Eles compram medalhas, imagens, lembranças e movimentam o comércio local. A economia de Asa Branca passou a depender de uma narrativa que ninguém tem muito interesse em questionar.
A novela mostra como a fé popular pode ser apropriada por quem deseja conquistar influência, dinheiro ou poder político. O mito não pertence mais apenas aos devotos. Ele também sustenta comerciantes, autoridades e todos aqueles que aprenderam a lucrar com sua manutenção.
Quatro décadas depois, continuamos vendo figuras públicas usarem símbolos religiosos para construir autoridade, receber uma espécie de certificação moral e transformar a devoção das pessoas em capital político.
O PREFEITO GOVERNA, DESDE QUE SINHOZINHO MALTA AUTORIZE
Florindo Abelha é o prefeito de Asa Branca. Pelo menos oficialmente. Na prática, boa parte das decisões passa por Sinhozinho Malta, o fazendeiro mais rico e influente da cidade. O prefeito ouve seus pedidos, atende às suas vontades e procura não criar problemas com quem realmente controla a política local.
A situação parece distante até lembrarmos quantas decisões públicas continuam submetidas aos interesses de empresários, proprietários e grupos econômicos capazes de financiar campanhas, pressionar autoridades ou telefonar diretamente para quem ocupa o cargo.
SINHOZINHO QUER SER NOTÍCIA, MAS ESCOLHE A MANCHETE
Sinhozinho Malta demonstra grande preocupação com o que a imprensa publica a seu respeito, principalmente quando o assunto envolve o Imposto de Renda.
Ele procura saber o que está sendo comentado e tenta controlar a maneira como sua imagem será apresentada. Não deseja deixar de aparecer. Quer apenas garantir que as notícias sejam favoráveis.
Afinal, como ele mesmo explica: “Cada um tem o seu trabalho. Tem gente que é notícia e tem gente que não é notícia”. Sinhozinho pertence, naturalmente, ao primeiro grupo.
A frase revela uma vaidade que continua presente em muitas figuras públicas. Elas desejam entrevistas, capas, câmeras e atenção, mas tratam qualquer pergunta desconfortável como perseguição.
A imprensa é considerada importante quando publica elogios. Quando questiona negócios, impostos ou relações políticas, passa a ser vista como inconveniente e logo recebe rótulos como “imprensa falsa” ou “militante”.
CONSERVADOR NOS DISCURSOS, FLEXÍVEL NA VIDA PARTICULAR
Sinhozinho Malta se apresenta como defensor da moral e dos bons costumes. Sua vida pessoal, entretanto, segue regras um pouco diferentes.
Mesmo tendo uma amante, a Viúva Porcina, ele pretende oficializar o relacionamento apenas três meses depois da morte da esposa. Ao mesmo tempo, foi o próprio Sinhozinho quem solicitou que a prefeitura concedesse o alvará para o funcionamento de uma boate de strip-tease em Asa Branca.
Esse conservadorismo bastante seletivo também não ficou preso em 1985. O discurso moral costuma ser rígido quando serve para vigiar a vida dos outros e surpreendentemente adaptável quando interfere nos desejos de quem o pronuncia.
E, como acontecimentos recentes estampados na imprensa têm mostrado, até os desejos privados de quem se apresenta publicamente como “conservador” podem acabar envolvidos em relações de poder, dinheiro e negociações com banqueiros.
O AEROPORTO É PÚBLICO, MAS A VALORIZAÇÃO DAS TERRAS É PARTICULAR
No primeiro capítulo, Sinhozinho Malta retorna de uma viagem durante a qual conversou com amigos deputados para tentar liberar recursos destinados à construção de um aeroporto em Asa Branca.
A obra seria apresentada como um avanço para toda a cidade. No entanto, algumas pessoas começam a comentar que o fazendeiro deseja o aeroporto porque sua construção valorizaria as terras dele.
Sinhozinho não perde tempo elaborando uma justificativa muito sofisticada: “Ia ter que ser construído em algum lugar. Se for beneficiar alguém, que beneficie eu, que fui quem pariu a ideia.”
A lógica é simples: o dinheiro é público, a obra pertence à cidade e o maior benefício econômico fica com quem possui os terrenos próximos.
Qualquer semelhança com emendas negociadas entre amigos, obras escolhidas por conveniência política e investimentos públicos que valorizam patrimônios particulares não exige grande esforço de interpretação.
ATÉ O CINEMA PRECISA NEGOCIAR COM A PREFEITURA
Uma equipe de cinema também chega a Asa Branca para produzir um filme sobre Roque Santeiro.
O diretor procura o prefeito em busca de apoio financeiro para realizar a obra. Assim, o poder público é convidado a financiar uma produção responsável por contar justamente a história que sustenta o turismo, o comércio e a autoridade política da cidade.
A situação acrescenta outra discussão bastante atual ao capítulo: a relação entre cinebiografias de “mitos”, interesses políticos e financiamentos cuja origem do dinheiro nem sempre é apresentada com a mesma clareza da narrativa que chega às telas.
Ou, como talvez seja mais conveniente dizer, “financiamento privado”.
QUARENTA ANOS DEPOIS, SÓ ESTÁ FALTANDO O LOBISOMEM
“Roque Santeiro” é uma sátira política, religiosa e social. Seu exagero nunca teve a intenção de fugir da realidade, mas de torná-la mais visível. O problema é perceber que o primeiro capítulo continua funcionando sem grandes adaptações.
A exploração política da fé permanece atual. O poder econômico continua influenciando decisões públicas. Autoridades ainda tentam controlar a imprensa, conservadores continuam negociando os próprios princípios e obras financiadas com dinheiro público seguem valorizando interesses privados.
Até a tentativa de transformar uma narrativa conveniente em filme aparece logo na estreia.
Assisti ao capítulo esperando encontrar uma cidade fantástica construída por Dias Gomes e Aguinaldo Silva. Encontrei uma cidade fictícia que se parece desconfortavelmente com o Brasil real.
Depois de quatro décadas, “Roque Santeiro” voltou à TV e quase tudo ainda está acontecendo.
Só falta o lobisomem.
QUEM FAZ?
Autoria: Dias Gomes
Coautoria: Aguinaldo Silva
Colaboração: Marcílio Moraes e Joaquim Assis
Supervisão: Daniel Filho
Direção: Paulo Ubiratan, Jayme Monjardim, Gonzaga Blota e Marcos Paulo
Direção-geral: Paulo Ubiratan
Elenco principal: José Wilker, Regina Duarte, Lima Duarte, Yoná Magalhães, Fábio Jr., Lídia Brondi, Paulo Gracindo, Lucinha Lins, Cássia Kis, Armando Bógus e Ary Fontoura
Produção: TV Globo
PROGRAME-SE
“Roque Santeiro” - Edição Especial
Exibição: de segunda-feira a sábado, nas tardes da TV Globo
Horário previsto: a partir das 14h45, sujeito às alterações da programação local
Onde assistir à versão completa: Globoplay





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