PRECISAMOS FALAR DE... DEO GARCEZ

Nascido no Maranhão e criado em Brasília, Deo Garcez foi um dos primeiros estudantes da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes a ingressar na TV, atuando em clássicos como “Xica da Silva” e “O Cravo e a Rosa”.

Foto: Eduardo Moraes e Maurício Code

Existem bate-papos que rendem boas histórias. No final de minha faculdade, pude entender e conhecer melhor esse artista que foi tão generoso comigo na elaboração de minha monografia. Lá se vão 10 anos de um feliz encontro, que gerou uma feliz entrevista. E é essa entrevista com Deo Garcez que compartilho agora com os leitores da coluna "Precisamos falar de...", do Portal Conteúdo.


Deolindo Rodrigues Garcez (Deo Garcez) é ator e professor. Tem formação em Bacharelado e Licenciatura em Artes Cênicas pela Faculdade de Artes Dulcina de Moraes (1984 a 1987 e 1987 a 1989). Atuou como professor da FBT (Fundação Brasileira de Teatro) após conclusão do curso.


Ex-aluno de Dulcina de Moraes, fez parte da terceira turma formada da FADM e revelou que na sua trajetória acadêmica pode realizar importantes trabalhos teatrais, como "Barrela", de Plínio Marcos e "As Criadas", de Jean Genet, aprendendo, na prática, como um ator deve se comportar num palco e na vida.


Nesse papo com Deo, ele comentou que teve ótimos professores e destacou Carlos Tamanini, com quem aprendeu a interpretar na prática, através de minucioso sobre o ensino de teatro. Um importante dado foi levantado por Deo sobre sua relação com os colegas de turma, em sua dupla habilitação:


“Desde essa época podia-se perceber que muitos colegas do bacharelado não seguiram em frente. Curiosamente os da licenciatura se sobressaiam no mercado. Fiz bacharelado, depois licenciatura.”.


Em Brasília, Deo participou de pequenos comerciais de televisão. A vontade de fazer TV já existia neste ator formado especificamente em teatro e, com o intuito de aprender sobre esta linguagem, fez cursos de interpretação para televisão no Rio de Janeiro com diretores como Tizuka Yamazaki e Wolf Maia, que lhe deram a base para o processo de interpretação para vídeo. Em 1992, quando, mudou-se para o Rio de Janeiro passou a participar de testes paralelos ao curso e atuou na série "Você Decide", da Globo. Fez também uma ponta em "Quatro por Quatro", de 1994.


Sobre a dificuldade de um ator de teatro em contato com o processo de interpretação da TV, comenta que houve sim uma dificuldade natural da profissão no início, pois quando se está de fora do eixo Rio X São Paulo tudo fica mais complicado:


“Me joguei de cabeça. Não foi uma outra opção, mas a minha primeira. Me preparei no Dulcina e encarei o mercado da televisão. Quando cheguei ao RJ de Janeiro para fazer cursos de interpretação para TV pensei: ‘Onde estou?’ Queria entender. Tinha a consciência de que estava aprendendo. Foi um estranhamento. Vi o quanto precisava aprender a linguagem da televisão. Não podia ser só um ator do Dulcina formado em teatro.”.

Deo em Xica da Silva

Deo lembra que ser um ator negro em Brasília foi difícil. O preconceito existia, mas não foi suficiente para que ficasse desanimado. E ele não desanimou! A vontade de pesquisar e de experimentar o possibilitou participar da telenovela "Xica da Silva" (Manchete, 1996). Alguns testes para a novela foram realizados em Brasília. Há, inclusive, outros profissionais da cidade que atuaram na trama.

“Em ‘Xica’ comecei a praticar mesmo. Fico muito feliz pelo sucesso de ‘Xica’. Texto e direção eram ótimos. Não havia estrutura financeira como a Globo, mas superava-se pela criatividade. Era um retrato excêntrico do Brasil, da moralidade da época.”.


Sobre o lendário processo de direção de Alexandre Avancini, o ator comenta:


"Avancini praticamente regeu minha interpretação. Dizia: ‘Isso não é teatro! Menos, mais natural. Abaixa o rosto, levante os olhos…’ Dizia também: ‘Olha! Concentra! Fica ligado que se não for legal coloco o quadro com outro ator’. Na dúvida, fazíamos todos com muita verdade cênica. Passei então a entender como era a televisão, sob as mãos de um ótimo diretor. ‘Xica’ era uma novela com explosões de temas excêntricos.


Ainda sobre "Xica da Silva", Deo comenta que Avancini (o diretor da trama) dizia que para os atores atuarem um tom acima do sussurro e aos poucos isso se transformou em característica da novela. A ideia era a de que o público, quando trocasse de canal, ficasse curioso quanto ao que estava sendo exibido pela Manchete.


Após "Xica da Silva", Déo participou de telenovelas como "Mandacaru" (Manchete, 1997), "O Cravo e Rosa" (Globo, 2000/2001), "Canavial de paixões" (SBT, 2003), "A Escrava Isaura" (Record, 2004), a trilogia dos “Mutantes” (Record, 2007, 2008 e 2009), "Carrossel" (SBT, 2012) e "O outro lado do paraíso" (Globo, 2018) e "Salve-se quem puder". Para ele, o ator deve ser seu próprio produtor. Deve saber como e onde mostrar seu trabalho, tendo sempre muita dedicação e estudo, mesmo em telenovela, onde o tempo para pesquisa pessoal é limitado. Sobre sua participação em "O Cravo e Rosa", pontua:


“Começo falando dessa novela com um conselho: Não espere nunca ser chamado por alguém. Deixe material seu em agências, faça testes, se mostre para o mercado! Lembro que liguei para o Walcyr, autor da novela, e pedi o papel. E ele escreveu o Ezequiel pra mim.”.

Deo em "O Cravo e a Rosa", "Carrossel", "A Escrava Isaura" e "O Outro lado do paraíso".

Outro importante trabalho para a televisão mereceu atenção do ator – "A Escrava Isaura", readaptação do texto de Bernardo Guimarães, realizada pelo autor Thiago Santiago e dirigida por Herval Rossano em 2004, pela Record. A novela está sendo reprisada pela quarta vez no Brasil.


“Achei o máximo ter feito A Escrava Isaura. Participar de um sucesso é sempre ótimo. A novela já prometia muito por ser outra versão da obra de Bernardo Guimarães para a televisão. Ao ler o roteiro, senti que a personagem André podia modificar minha carreira. Havia temática sobre libertação, luta contra o preconceito. Tenho no sangue e na alma a sensação dessa personagem. Sou negro. Através da personagem eu quis dizer coisas, mensagens. Sentia-me como um porta-voz da liberdade e igualdade. A novela foi um sucesso!".

Bastidores da TV

Nos últimos, Deo esteve num projeto determinante para sua carreira: o espetáculo "Luiz Gama - Uma voz pela liberdade". Roteirizado pelo próprio ator, com direção de Ricardo Torres, a obra traz a história do jornalista, poeta e advogado abolicionista que libertou mais 500 escravos do cativeiro ilegal, trazendo à tona assuntos que refletem na atualidade. A obra, que já circulou por diferentes teatros e auditórios, conta também com Nivia Helen, que passeia por personagens como apresentadora, musa inspiradora e Luísa Mahin, mãe do abolicionista Luiz Gama. Um sucesso!


O espetáculo Luiz Gama ganhou proporções além das esperadas. Se transformou num performance aberta que ultrapassou o teatro e se consolidou quase que como uma atividade formativa. Em 2019, pelo reconhecimento por sua contribuição artística no teatro e na televisão, Deo recebeu a Medalha Pedro Ernesto, honraria da Câmara Municipal do RJ, num evento que contou com diferentes personalidades da cultura. Em fevereiro de 2020, foi convidado pela Escola de Samba Acadêmicos de Cubango, de Niterói (que homenageou a história de Luiz Gama), para subir num carro alegórico e desfilar no carnaval.

Reprodução: Redes Sociais

O ator não para. Ativista na questão dos direitos dos artistas, está sempre por dentro do movimento da classe, postando informações e contribuindo para o fortalecimento da categoria.


A entrevista com Déo Garcez foi realizada em Botafogo, no Rio de Janeiro. Tempos depois, defendi a monografia na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes e fui aprovado (que bom!)! Após alguns meses, fiz questão de encontrá-lo para mais um café, que acabou virando cerveja e que se estendeu pra uma linda celebração madrugada adentro, afinal, segundo ele mesmo, não dava pra comemorar um “SS” na porta de um bar. Fiz ali um amigo. Sempre acompanho suas publicações no Instagram e toda vez que vejo, um sentimento de carinho, gratidão e nostalgia tomam conta de mim.


Precisamos falar sempre de Deo Garcez.


"Hoje não gosto de brincadeirinhas na hora da gravação. Estou ali para trabalhar. O sucesso não é de uma cena, mas da novela inteira. A continuidade, a técnica, todos são responsáveis pelo sucesso de uma trama. Quando a produção de arte não capricha, por exemplo, isso aparece no vídeo. A integração dos profissionais é essencial."
DEO GARCEZ

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