O FIM DE UMA ERA: CD'S DE NOVELAS DEIXAM DE SER PRODUZIDOS PELA SOM LIVRE

A notícia repercutiu na internet, atingindo diretamente colecionadores do gênero. O que um dia foi sinônimo de sucesso com venda de discos, fitas e CD's, hoje é algo do passado. As trilhas de "Amor de Mãe" e "Salve-se quem puder" provavelmente foram as últimas comercializadas.

Foto de Josuel Junior

Entre a primeira trilha sonora de novela lançada em disco pela Globo e a última lançada em CD, foram muitas coletâneas de sucesso que marcaram época nos lares brasileiros. Antes já existiam compactos e LP's com músicas de novelas, mas não eram oficialmente do programa em si, mas de cantores que davam voz aos temas presentes na obra.


Com "Véu de Noiva", exibida entre 1969 e 1970, foi possível garantir um exemplar do disco que vinha com temas tocados na trama. Totalmente produzida por encomenda de Daniel Filho a Nelson Motta, que selecionou músicas específicas para determinados personagens e núcleos, a trilha foi lançada pela Companhia Brasileira de Discos (CBD), atual Universal Music. De lá pra cá, muitas trilhas ganharam destaque e eram, recorrentemente, encontradas nas estantes das casas.

Reprodução de Imagens do site Teledramaturgia, de Nilson Xavier.

Dos anos 1970, destaque para os discos de "Irmãos Coragem" (1970 e relançado em 1980), "Selva de Pedra Nacional e Internacional" (1972), "O Bem Amado Nacional" (1973), com composições de Toquinho e Vinícius", "O Espigão Internacional" (1974), que por algum motivo sempre figurava nas casas das tias, "Gabriela" (1975), lançado com requinte pela série Super Luxo em comemoração aos 10 anos da Globo", "Anjo Mau Nacional e Internacional", (1976), "Estúpido Cupido Nacional e Internacional" (1977), a ótima trilha de "Saramandaia" (1977) e as populares "Te Contei Internacional" (1977), "Dancin Days Nacional e Internacional" (1978), "Pai Herói Internacional" (1979), a festiva e espirituosa trilha de "Marrom Glacé Nacional" (1979) e, encerrando a década, "Água Viva Nacional e Internacional" (1980)

A era de ouro dos discos e fitas veio nos anos 1980 e 1990, atingindo diretamente os jovens que, comprando uma trilha de novela, ganhavam uma verdadeira coletânea do que era sucesso no momento. As trilhas foram um recorte de seu tempo, trazendo o que era tocado nas rádios nos respectivos anos. Entre 1981 e 1990, destaque para "Chega Mais Nacional" (1981), "Baila Comigo Nacional e Internacional", (1981), a deliciona coletânea de "Sol de Verão Nacional e Internacional" (1983), e "Pão Pão Beijo Beijo Internacional" (1983).

Arte sobre imagens da internet.

"A Gata Comeu Internacional" (1985) era a quase que unanimidade nas radiolas do Brasil, acompanhada de "Roque Santeiro Volumes 1 e 2" (1985), "Hipertensão Internacional" (1987), outro sucesso popular, "Brega e Chique Internacional" (1987), "Fera Radical Internacional" (1988), "Vale Tudo Nacional e Internacional" (1988), um clássico retumbante, "Bebê a Bordo Nacional", "Tieta Volumes 1 e 2" (1989 com relançamento em 1994), "Top Model Nacional e Internacional" (1989), febre entre adolescentes, e "Barriga de Aluguel Internacional (1990).

O primeiro CD de novela no Brasil

E foi justamente em 1989 que os discos e fitas de novelas tiveram mais uma companhia: o CD. A primeira trilha lançada nessa mídia foi "O Salvador da Pátria Internacional", um apanhado de músicas românticas muito popular. No entanto, esses CD's de novela ainda eram artigos de luxo. A comercialização maciça mesmo de CD's ocorreu entre 1994 e 1995.


Entre 1991 e 1996 o ritmo da eurodance passou a ser quase que música obrigatória nas trilhas de novelas. Quem tinha toca-discos, optava pelo disco, quem não tinha tanta grana, optava pela fita K7. Já quem era mais moderno se arriscava no CD. Dessa primeira parte da década, destaque para as trilhas de "Meu Bem, Meu Mal Internacional", "Vamp Nacional e Internacional" (1991), "Felicidade Nacional e Internacional (1991), "De Corpo e Alma Internacional" (1992), "Mulheres de Areia Nacional" (1993), "Renascer Volumes 1 e 2" (1993), "Sonho Meu Internacional (1993) e as que são indiscutivelmente fantásticas "A Viagem Nacional e Internacional" (1994), "Quatro por Quatro Internacional" (1995), "A Próxima Vítima Internacional" (1995), "História de Amor Nacional e Internacional" (1995) e "Cara e Coroa Internacional" (1996) e "Vira Lata Internacional"

Arte sobre imagens da internet

A partir de 1996 a dinâmica de lançamento de trilhas sonoras mudou. Os discos de vinil passaram a ser prensados em quantidade mínima até serem aposentados em 1997. É comum encontrar anúncios exorbitantes de alguns desses LP's do período que nem eram tão legais assim, mas que, por terem pouquíssima tirarem, se tornaram artigo raro, como é o caso das fraquíssimas "Anjo de Mim Nacional e Internacional", "Quem é Você Nacional e Internacional", "Malhação Volume 3", "O Fim do Mundo" e "Salsa e Merengue Nacional", datadas de 1996. Por sorte, você encontra algum exemplar por menos de R$300,00 no Mercado Livre. Uma que é muito boa, mas que é bem difícil de achar, é "A Indomada Volume 1", o último disco de novela comercializado regularmente. Anos depois a Globo até fez uma edição especial de "Os dias eram assim", uma supersérie de 2017 que, por se passar nos anos 1970, teve uma edição lançada em vinil em caráter excepcional.

Os últimos exemplares lançados em vinil (entre 1996 e 1997)

Sem ser com temas da eurodance, uma trilha de novela ganhou muito destaque em 1996. "O Rei do Gado" teve sucesso estrondoso de vendas. A primeira trilha trazia temas que até hoje são ligados diretamente à novela. Já a segunda trilha trazia uma metalinguagem: a maior parte das músicas era cantada por Sérgio Reis e Almir Sater, que na novela faziam o papel da dupla sertaneja Pirilampo e Saracura.


Ainda na fase de transição, foi em 1998 que a Globo parou de comercializar outra mídia: o K7. Ela já havia deixado de ser popular com a baixa de preços dos CD's. Não há muitas imagens que possam comprovar, porém, há indícios de que a última trilha lançada nesse formato tenha sido a de "Corpo Dourado Nacional", em 1998.


Dessa fase, destaque para "Anjo Mau Internacional" (1997), "Por Amor Nacional e Internacional" (1997), "Suave Veneno Internacional", (1999), "Terra Nostra Volume 1", que foi o primeiro CD com encarte mais bem elaborado, com letras das músicas e fotos da novela. A vendagem foi alta e a curiosidade por temas italianos aumentou a procura. "Vila Madalena Internacional" também continha bons temas. A novela era fraca, mas a trilha salvou. Fechando a década, as populares "Uga Uga Nacional e Internacional" (2000), sim... quem era jovem comprou, e a perfeita "Laços de Família". Tanto o CD nacional quanto o internacional agradaram muito. Nem era preciso pedir emprestado, pois muita gente tinha.

Sucessos dos anos 1990 e 2000. Arte sobre imagens da internet.

No início do novo século, os CD's estavam em alta. Era possívei ir em lojas de departamento para dar play nos exemplares e usar fones de ouvido coletivos. Se você não tinha ainda o dinheiro pra comprar, esse momento íntimo de ouvir as músicas do álbum ajudavam a matar a ansiedade. Lembro de ouvir "O Clone" e "Um anjo caiu do céu" no Extra. Muitas outras fizeram sucesso na época, como "Estrela-Guia" (2001), as já citadas "O Clone" (2001), com suas duas trilhas principais (a nacional e a internacional). No caso de "O Clone", havia muitos lançamentos extras que, embora sejam de músicas conhecidas para quem viu a novela, não teve tanto alcance. "Desejos de Mulher Nacional e Internacional" (2002) também vieram com muito esmero, bem como "Coração de Estudante Nacional e Internacional" (2002), "O Beijo do Vampiro Nacional e Internacional" (2002), "Mulheres Apaixonadas Nacional, Internacional e Volume 2", "Celebridade Nacional e Internacional" (2003), "Da cor do pecado" Nacional (2004) e "Senhora do Destino Nacional" (2004). A exemplo de "Vila Madalena Internacional", outro CD de novela contou com músicas incríveis, por mais que a trama em si seja bem esquecível. Trata-se de "Agora é que são elas" (2003), um daqueles acertos de repertório que fazem o álbum ser guardado com carinho.


A partir de 2005, com a pirataria dos CD's e com a possibilidade de fazer downloads de álbuns, a força das vendas diminuiu. Qualquer pessoa podia copiar uma trilha pra um amigo, sem contar que nessa época os jovens não guardavam muito as capas. Alguns optavam por estojos estofados para colocar só os discos. Dessa forma, podiam levar os CDs para o carro, para uma festa, por exemplo.


Outro fator curioso é que a partir de 2005 a própria Globo deixou de se dedicar à produção das trilhas sonoras. Os álbuns vinham até recheados, com letras de músicas, fotos extras nos encartes... porém, é difícil lembrar quais músicas tinham nos CD's, pois a fase de associação de músicas às personagens da história parou de ser uma prioridade pelos produtores musicais. A impressão que dá é a de algumas músicas aleatórias foram escolhidas pra preencherem o espaço. Novelas com temáticas mais específicas, como as de época, ainda mantinham a característica de músicas para personagens e núcleos. As urbanas não... "América", de 2005, teve a trilha lançada primeiramente num CD combo. Depois as mesmas músicas foram comercializadas em CD's individuais. Isso gerou um desinteresse do público em comprar de novo só pra ter uma tiragem diferente. Constam, por exemplo, lançamentos de trilhas sonoras complementares de várias novelas que a gente nunca nem viu na loja.

Os últimos CD's a alcançarem certa repercussão.

Com muito esforço, destacamos algumas que se sobressaíram ao descaso dos produtores, como "Belíssima Nacional" (2005), "Páginas da Vida Nacional e Internacional" (2006), "Paraíso Tropical Internacional", "A Favorita Internacional e Sertanejo", (2008) e "Caminho das Índias Nacional" (2009).


Percebem que foram poucos exemplos? Na década de 2010, houve um certo fôlego da venda de CD's, principalmente pela alta popularidade de tramas como "Avenida Brasil" (2012) e "Cheias de Charme" (2012). Só que o fôlego durou pouco. Logo as trilhas voltaram a ser chatas, com excessão de "A Vida da Gente" (2011), "Amor à Vida Internacional" (2013), "Sete Vidas Nacional e Internacional" (2015), "Totalmente Demais Nacional" (2017), "Rock Story Volume 1" (2018) e "Segundo Sol" (2018), que trouxe uma proposta interessante de resgate de músicas de axé. Depois disso só fomos ouvir coisa boa mesmo em "Amor de Mãe Volumes 1 e 2" (2019), que foi justamente, a última novela a ter CD produzido. Na verdade, a trinca de novela exibidas antes da pandemia ainda teve CD comercializado, mas dificeis de serem encontrados em lojas físicas justamente pelo isolamento social. Os que tenho adquiri pela internet.


Se "Véu de Noiva" foi a primeira trilha original em disco em 1969, "O Salvador da Pátria Internacional" a primeira CD em 1989, agora já podemos dizer que "Éramos Seis" (2019), "Amor de Mãe" (2019/2020) e "Salve-se quem puder" (2020) foram sim as últimas novelas da Globo a terem CDs lançados.

CD's que em breve seraão artigos raros.

A Globo anunciou em abril de 2021 que fechou um acordo para vender a gravadora e desenvolvedora de talentos musicais Som Livre para a Sony Music Entertainment. A Som Livre foi fundada em 1969 com o objetivo inicial de lançar as trilhas dos programas da emissora. Durante cinco décadas a empresa cresceu, virou uma das mais importantes da música brasileira e ajudou a revelar e construir carreiras de artistas como Djavan, Rita Lee e Novos Baianos.


Já no mês de setembro de 2021, procurada por canais de comunicação a Som Livre explicou a decisão:


"Salvo algumas exceções, como lançamentos especiais, a Som Livre não está produzindo material físico de trilhas sonoras e nem de artistas", respondeu a gravadora. Apesar do encerramento da produção das mídias físicas, nada impede que a Globo lance as trilhas em plataformas digitais


Como nada se perde e tudo se reinventa, agora é esperar pra ver como vai ser o futuro das trilhas sonoras ou se elas se tornarão, de fato, algo do passado...


Para ilustrar esta matéria, consultamos fotos da internet, acervo pessoal do autor e o o Teledramaturgia - site de Nilson Xavier que possui um verdadeiro relicário da história do gênero no Brasil.

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