• Josuel Junior - Editoria

AGITADORES CULTURAIS DO DF OPINAM SOBRE A SITUAÇÃO DA ARTE LOCAL

Algumas medidas paliativas do governo e do setor privado oferecem subsídios emergenciais a artistas por meio de linhas de crédito e editais, mas isso, de fato, adianta?


Engana-se quem pensa que apenas produtos de arte são atingidos nesse período de enfrentamento ao Coronavirus. Uma grande rede de trabalhadores informais ficou desamparada com as pausas nas produções, seja no setor teatral, musical, das artes visuais ou do audiovisual.


Algumas medidas emergenciais, como a criação de novos editais, têm sido uma saída para muitos produtores e artistas. Foram lançados editais do CCBB, do ITAU, do deputado Fábio Félix, do PSol, e do FAC DF. Esse último cheio de questões.


A Secretaria de Cultura e Economia Criativa criou um edital de abrangência online para minimizar os efeitos negativos na cadeia produtiva do DF. No entanto, muitos produtores não têm contato com a dinâmica de produtos web e o lançamento do edital FAC Apresentações On Line traz com ele uma série de questionamentos da classe artística, principalmente por haver dois outros editais pausados que já poderiam ser executados, caso a equipe da Secretaria de Cultura se mobilizasse para adiantar as assinaturas de termos de ajuste e viabilizar a fase de empenho. Ficou confuso? Vamos explicar...


A Secretaria de Cultura e Economia Criativa criou esse novo edital, que ainda terá que passar pelas seguintes fases:


*Publicação de Portaria;

*Período de Inscrições;

*Análise de Material e de Mérito Cultural;

*Pedido de Recurso;

*Aprovação;

*Divulgação dos Aprovados em Diário Oficial;

*Período para entrega de documentos e assinatura dos Termos de Ajuste;

*Abertura de Conta no BRB;

*Execução.


Até que tudo esteja pronto, o Coronavírus já terá sido combatido pelos cientistas. O que acontecerá é o aumento da expectativa dos artistas, que entrarão pela terceira vez consecutiva num edital que não depositará o recurso nas contas. O mais prático seria validar o FAC Áreas Culturais de 2018, pagar projetos de 2019 e aí sim a Economia Criativa poderia existir, de fato, entre prestadores de serviços que não precisam sair de casa para dar andamento aos projetos, como é o caso de produtores, figurinistas e até atores e diretores, que poderiam investir em leituras de texto.


Ciente desses questionamentos, o Secretário Bartolomeu Rodrigues informou que o edital ficará aberto por apenas 15 dias e que a comissão julgadora será o Conselho de Cultura do DF (CCDF), ou seja, não haverá pareceristas externos (como dos outros editais do FAC) nem tampouco um encontro dos mesmos. Nisso haverá um grande ganho de tempo. Ele informou também que não pode mudar o prazo de 90 dias para recebimento de verba, pois é difícil apressar o trâmite para não burlar a Lei. Agora, com relação ao outro questionamento, do FAC de 2018 em atraso, Bartolomeu alega que o processo foi retomado em fevereiro, logo depois que ele assumiu a pasta e desbloqueou o FAC. Por coincidência, o prazo para resolver esse edital atrasado se deu já em clima de pandemia, com a Secretaria trabalhando em regime de teletrabalho. Há a garantia de que os processos continuaram dentro do fluxo normal, embora os proponentes dos projetos não tenham sido notificados para que possam dar continuidade ao que já está pausado.


Para falar sobre isso e outras questões relacionadas à cadeia de produção artística do DF, o Portal Conteúdo entrou em contato com alguns artistas, agitadores culturais e produtores do Distrito Federal e regiões para saber a opinião deles sobre o cenário atual das artes nesse período de pandemia global.


ALEX BERNARDO

O ator, diretor e professor Alex Bernardo entende que a Secretaria de Cultura ou um coletivo de artistas que entendem de trabalhos web poderia criar uma espécie de plataforma em que os artistas pudessem depositar suas obras. Quem tem uma peça gravada, um show musical poderia disponibilizar seu material para apreciação coletiva.


"É como se fosse uma espécie de Netflix local. À medida que houvesse interesse, o portal poderia contar com categorias e subcategorias de Peças, Filmes, Documentários, Shows Musicais e Álbuns. Além do trabalho do artista ter essa visibilidade, seria uma forma de contribuir com ele.".


CAMILA BARCELAR

A produtora de elenco Camila Barcelar trabalha ativamente com castings na cidade. Sua produtora, Set Elenco, está entre as que mais atuam no mercado audiovisual da capital. Ela lembra que nesse exato momento em que todos estão vivendo o distanciamento social, as equipes de filmagem estão reduzidas e há uma demanda baixíssima de novos trabalhos. Apenas um cliente seu continua em trabalho, que é o governo do DF, pois necessita fazer informativos a população sobre a COVID-19 e outros assuntos ligados à educação, benefícios, etc.


"Tenho atendido esse cliente on-line. Não estamos fazendo testes de vídeo e estamos fazendo a indicação do elenco via links de trabalhos anteriores. No meu setor não vejo perspectiva de trabalho diante do momento, acho que irão manter esses.".


Camila defende que se todos os atores figurantes de Brasília fizessem videobooks, fotos profissionais, separassem links por forma de trabalho, seria possível facilitar a agilidade de aprovações e isso evitaria que os profissionais fossem buscados fora da cidade, tendo em vista o elenco incrível que trabalha aqui.


MARCELO PELÚCIO

O ator e produtor Marcelo Pelúcio está sempre à frente de discussões sobre a arte e a cultura do DF. Tem lutado a favor da manutenção e de um maior diálogo da classe artística. Ele fala da triste realidade do SATED de Brasília e crê que seja necessário um mecanismo de a entrada no sindicato, que há muitos anos é inoperante e não atende as expectativas dos artistas.


"Como é que a gente lida com uma categoria que, de repente, fica desamparada? Em Brasília não há uma base institucional para artistas. Quais são as iniciativas das instituições que, em princípio, dialogam com a classe artística sobre mecanismos de apoio, fomento, manutenção desse conjunto de ações da economia criativa? Essas instituições que existem hoje atendem os profissionais com que frequência, com que dimensão? Ainda requer muito aprimoramento para que digamos que enxergue o artista como um indivíduo criativo, produtor e que também gera riqueza para a sociedade.".


Marcelo é morador de Valparaíso de Goiás, cidade do entorno do DF. O artista explica que lá e em outras cidades de periferia, algumas medidas adotadas no segmento de arte e cultura não se aplicam tão fortemente.


"Pense comigo... Aqui na minha varanda não tem janela pra fora, não moro em condomínio onde eu possa fazer um show na sacada. São lindos esses movimentos que surgem na internet e que a gente vê, mas nas periferias esse modelo poético de cantar na sacada não existe... ou, se existe, é bem diferente, não só pelo aspecto estrutural das cidades, mas também pelo aspecto vivencial. A estrutura de sobrevivência é bem diferente do que se vê no centro. Os recursos são muito menores. Alguns editais lançados não se aplicam a essa realidade. Há a criatividade, mas não há estrutura.".


Sobre a medida do novo FAC, Marcelo sente que o Secretário está aberto para um diálogo com a categoria, mas reforça que é importante não criar novos mecanismos apenas em situações emergenciais para apagar incêndio. Segundo ele, é possível que haja uma política de estado sem alarde, sem ser só emergencial. Pode ser mais perene e constante. "Os olhos não precisam se voltar à arte só nas crises. Pode ser assim o tempo todo", finaliza.


CRISTIANE SOBRAL

Importante nome na cena teatral local, a atriz, poetiza e escritora Cristiane Sobral admite que trata-se de um momento muito difícil. Ela vê como positivo a criação desses novos editais, que de qualquer maneira, vêm oportunizar algo. No entanto, considera importante fazer uma associação entre grupos para que todos os artistas possam entender melhor esses novos formatos, as novas cláusulas, afinal, nem todo artista está tão afinado com a escrita e a execução de um projeto cultural com essas novas tecnologias.


"É preciso tentar entender as possibilidades que os novos editais apresentam, inclusive porque tem ali as indicações de apresentações online. É um caminho novo pra gente trilhar. Temos que cobrar também dos organismos públicos que nos instruam também. Por ser um caminho novo, é preciso um tutorial, um passo-a-passo para que essa nova maneira de fazer arte seja mais entendida por todos.".


ANDRE AIRES

O ator e professor Andre Aires tem se reunido de forma online com outros colegas da Cia. Yinspiração para manter o mínimo de fluxo criativo possível.


"A gente liga a câmera, cada um faz o treino em sua casa, mas todo mundo em conjunto. Estamos tentando ensaiar algumas coisas pela internet. Por mais que sejam iniciativas voltadas para a manter alguns projetos de arte, ainda acho as ações muito particulares, muitos pessoais.".



TATI RAMOS

Uma das atrizes que mais trabalham em teatro no DF, Tati Ramos tem sentido na pele os efeitos das paralisações de atividades artísticas. Integrante da Cia. Novos Candangos, ela também atua como dubladora e narradora de audiobooks. A artista comenta que os novos desafios, adaptações e ressignificações estão acontecendo em todas as áreas de trabalho do Brasil, porém, lembra que é na arte que muitos se apoiam para driblar o tédio de quarentena, não é a toa que filmes, lives de shows, seriados, reprises de novelas e realities têm ganhado força nos lares.


"Minha intenção não é romantizar a pandemia de forma alguma, mas ela está servindo pra mostrar como a arte é importante. Não só a arte, mas também outras áreas que estavam sendo negligenciadas pelo governo atual, como a educação física, que também estava ameaçada de ser retirada dos currículos das escolas. A gente está vendo a importância de fazer exercícios físicos durante a quarentena e de ter produtos de arte de todas as formas. A gente precisa de arte para respirar, para refletir pra encarar nossas realidades.".


Tati é casada com Matheus Ferrari, outro importante artista do DF que trabalha nas áreas de teatro e música. Matheus é professor e isso ameniza a situação, uma vez que há a possibilidade contratual de recebimento de salário mesmo na quarentena. Ela pondera que existe uma falha de planejamento no caso do novo Edital do FAC, uma vez que o dinheiro dos aprovados só será repassado três meses depois. Se o governo desse uma pausa na cobrança das contas que chegam, seria menos desesperador para muitos outros profissionais.


"Eu vivo realmente de teatro e de outros trabalhos como dubladora e narradora de audiobooks, mas esses também foram serviços prejudicados Há a impossibilidade de ir ao estúdio gravar. A gente tá tentando se virar em home office, home studio, trabalhando com os equipamentos que temos em casa.".


A artista explica que seu grupo, Novos Candangos, assim como muitos outros coletivos, disponibilizou cinco espetáculos de repertório na internet. A ação, reproduzida por todo país mostra a importância do fomento para as artes. Os grupos de teatro, muitas vezes, investem em locações de espaço e a crise mostra a dificuldade em mantê-los abertos. Se antes já era difícil trabalhar com arte e ter um espaço físico para ensaios e apresentações, com a pandemia do Coronavirus as perspectivas de continuidade do setor diminuem de maneira veloz.


Para assistir ao repertório da Cia. Novos Candangos no YouTube, clique na imagem abaixo. A contribuição é espontânea via depósito bancário.


As entrevistas com os artistas e produtores foram realizadas entre 05 e 08 de abril de 2020 pela internet.

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