TEMPERO DA CARNE - UM PROJETO DE JULIO LEÃO

"Tempero da Carne", projeto idealizado por Julio Leão, é uma experiência fotográfica multissensorial, imersiva e ritualística com muitos temperos, especiarias, corpos e poesia.

Arte sobre fotos de Julio Leão - Luciana Pamplona, Ellen Oléria, Marcelo Roya e Felipe Bueno

Julio Leão é artista visual e da cena. Tem 32 anos e mora no estado de São Paulo. Sua história com a arte começa na infância com influências musicais, plásticas e visuais apresentadas por seus pais. Passava tardes e tardes rabiscando croquis e bolos escandalosos com sua mãe e criando coreografias aleatórias com o irmão. Tudo de maneira muito orgânica, como de ser na infância.


Ainda menino, encontrou nas atividades extracurriculares da escola a dança, o teatro e o canto. Fez cursos que passavam por diferentes linguagens e assistiu a muitos espetáculos. Em meados de 2010, começou a dar aulas de sapateado e fazer parte da equipe criativa da escola. Nesse momento, em que ele pode ver mais de perto a concepção dos espetáculos e seus registros, surgiu uma nova paixão: a fotografia de cena.


"Eu percebia que algumas fotografias não registravam o trabalho e a dedicação real daqueles corpos que dançavam. A construção das coreografias, dos figurinos e iluminação não estavam sendo registradas. Decidi em 2012 que daria uma pausa indefinida na dança e me dedicaria em buscar dentro de mim um olhar sensível e artístico para registrar isso que sempre vivenciei. Comprei minha primeira câmera Canon T3, bem basicona mesmo, e comecei a conhecer o equipamento na prática, intuitivamente. Fotografei artistas que faziam parte do meu circulo de amizades e depois percorri aquele caminho inicial inevitável das festas infantis, gestantes e eventos, até me sentir confortável com o mundo das fotometrias pra voltar ao universo dos palcos. Esses mesmos artistas que fotografei me chamavam para registrar seus espetáculos e foi assim que encontrei o que realmente gosto de fotografar. Eu buscava o que fotografar como se estivesse ali no palco. Conhecia o 5,6,7,8 das coreografias cênicas, acompanhava os passadões e conhecia o roteiro, prevendo o que fotografar. Tudo se encaixava!", comenta Julio.


Com o pensamento de registrar através da sensibilidade, Julio seguiu a seguinte premissa: “que foto eu queria ter se eu estivesse no palco?”. O tempo foi passando, ele foi experimentando, montando seu portfólio e, em 2016, surgiu uma vontade de fotografar corpos em movimento.

Rony Hernandes, Fernando Sales, Spartakus e Luciana Pamplona

"Foi numa viagem a trabalho que o primeiro aroma do Tempero da Carne surgiu. Comentei com duas pessoas que estavam comigo e dessa conversa o projeto foi criando rumo. Conversei com mais tantos amigos e cheguei no conceito/provocação de que somos essa carne que é diariamente consumida em diversas situações (familiares, de trabalho, relações…) e que os temperos são nossas máscaras, as facetas que temos e desenvolvemos para que as relações aconteçam. O primeiro ensaio foi numa tarde experimental. Testamos como peneirar os temperos e quais, como fixar no corpo, qual a trilha sonora e como eu conduziria cada pessoa fotografada. A ideia inicial era uma série fotográfica com 8 pessoas que dançaram comigo e a cada ensaio eu descobria como lidar com esses elementos", explica.


O projeto foi ganhando mais adeptos na medida em que Julio comentava sobre a ideia. E deu certo! Hoje, mais de 70 pessoas foram "temperadas"! Entre elas, artistas como Hugo Faz, Wilton Oliveira, Charles Cunha, Fabio Lopes, Felipe Paes, Rony Hernandes, Rafa Canoba e Rodrigo Kupfer, além da cantora Ellen Oléria e do youtuber Spartakus.


"Ter meu trabalho exposto com outros tantos no Museu da Diversidade Sexual, sem dúvida, foi uma satisfação sem tamanho! Lembro de cada ensaio, dos papos e da troca com cada pessoa antes, durante e depois dos temperos caírem. Eu crio uma atmosfera que só quem viveu, sabe. Ao longo das experiências, alguns adjetivos começaram a fazer parte do conceito e hoje, o Tempero da Carne é uma experiência fotográfica multissensorial imersiva e ritualística".

Rodolfo Karamo, Sara Bernardino, Gi-raw e Fernando Sales

Pouco antes da pandemia, Julio tive a primeira experiência aberta ao público numa performance com a Jocarla Gomes na Nave Coletiva, sede da Mídia Ninja em São Paulo. A segunda performance aconteceu em março de 2020 na Unibes Cultural, num evento focado na mulher e o empreendedorismo gastronômico. Com o avanço dos riscos do novo Coronavírus, o projeto precisou dar uma pausa nas ações presenciais. Surgiram, então, as Lives Temperadas, as rifas com produtos e prints e as participações em ações virtuais.


RECOMEÇO EM SEGURANÇA

No final do ano passado, Julio organizou um mutirão de ensaios pra aproveitar o quintal de onde morava. O resultado ganhou novamente as redes sociais. Desde então, ele tem feito lives semanais com as pessoas que participaram pra falar sobre suas histórias, os dias de quarentena, refúgios artísticos e claro, da experiência com o projeto.


Outro recomeço significativo foi às aulas de dança. Depois de oito anos sem pisar numa sala de ensaio, o artista voltou a vivenciar o que sempre esteve forte dentro de sua veia artística, só que agora, com mais maturidade e vivência prática.

AÇAFRÃO, COLORAU, CRAVO, CANELA...

Curry, louro, coentro, cominho, pimenta, páprica e noz moscada. Entendendo a fusão de aromas, cores e sentimentos, a técnica e a prática dos ensaios de "Tempero da Carne" ganham ainda mais respeito e admiração. A metáfora de que o corpo é carne e que os temperos são camadas nos encantam de imediato... mas há algo além disso... Há a audácia de uma mente pensante em constante movimento.

Naíra Gascon e Wilton Oliveira

"O movimento do corpo é o que me instiga. Eu adoro fazer as provocações a cada pessoa que se permite viver minhas propostas. Antes de cada em ensaio, busco saber como foi e como é a relação do corpo com o movimento, seja ela com os esportes, ou com as artes ou com as influências vividas. Conduzo os corpos pro movimento, sugiro imagens e busco a diversidades das formas e linhas que esse nosso corpo-massa é capaz de fazer. É visível o caminho entre a resistência e a entrega de cada história corporal no fim de cada experiência. Sou movido pelo movimento, pelas cores e pelas sensações. Esse projeto tem uma grande importância na minha trajetória artística, por cada passo, conquista e corpo-historia que conheci através dos temperos", defende Julio.

Engana-se quem pensa que o idealizador desse tipo de projeto só fica na parte conceitual ou operacional Julio Leão também embarca nos desafios, afinal, para falar de sensibilidade, é preciso estar sensibilizado.


"Eu estava (há tempos) me sentindo distante de mim e sem muita relação com meu corpo, mas tudo mudou quando combinei um ensaio com um amigo fotógrafo. Entre um café e um papo, fazíamos umas fotos despretensiosas. O desconforto estava presente em mim porque eu não sabia mais me relacionar comigo… e só depois de algumas horas vi uma foto que me reconheci e um turbilhão de pensamentos veio à tona. Quando me coloco na posição de ser fotografado, eu estou vulnerável à forma de como o outro vê esse meu corpo-massa cheio de história. A decisão de ser fotografado por pessoas e projetos conhecidos é importante pra que esse momento de autoconhecimento seja válido e prazeroso. Além do Fabio Lopes, vi meu corpo pelo olhar do Francisco Bianchi (do projeto Les Garçons Bleus), Wilton Oliveira (do projeto Men in Charcoal), Rodrigo Vendetta, pelo projeto Meninos que Vi, Andrea Vicente (no projeto Imersão), Rafa Canoba e Chris The Red, recentemente no seu projeto online Corpos de Quarentena. Estava vivendo momentos diferentes em cada ensaio, com inseguranças diferentes mas, sempre disposto a estreitar minha própria relação".

A NUDEZ MASCULINA CONTRA OLHARES DE REPROVAÇÃO

Felipe Paes

Muitas vezes, falamos da não sexualização do corpo nu. Muitos modelos homens têm uma necessidade quase que automática de tapar o sexo na hora das fotos, de fazer movimentos corporais de torçoes que camuflam o pênis, os pelos. Alguns ensaios, inclusive, revelam a nudez de maneira muito pudica. Obviamente, isso representa muitas camadas dos discursos sobre masculinidades, liberdade de expressão e autoaceitação. Há até uma proteção à figura nua masculina como algo "a ser escondido" para ser aceito como artístico. Em alguns casos, para ser bem recebida pelo público, essa nudez masculina se mostra de costas, encolhida, quase sempre camuflada de frente. O corpo masculino ainda tem pedido permissão pra ser revelado. Sobre isso, o artista comenta:


"Acredito que exista uma tendência na objetificação sexual por conta do grande, longo e eterno tabu da nudez/sexo/corpo.O nu feminino sempre foi usado na arte e no marketing para o terrível prazer machista e o falocentrismo tá sempre na sombra disso tudo. A exibição do nu masculino hoje em dia em tempos de redes sociais tem aumentado e provocado grande engajamento. Arrisco dizer que essa “sacralização” seja a forma de estar online. Quando falamos sobre os ensaios masculinos que tendem a retratar corpos torcidos que cobrem e camuflam, ou sobre qual lado do corpo 'é autorizado' estar online, estamos falando ainda sobre a publicação nas redes sociais… Talvez, o acesso ao público seja feito dessa forma por conta da censura nas redes. Mas, enquanto fotógrafo, posso fazer uma análise tanto dos ensaios intimistas que faço quanto do Tempero da Carne: as torções, em sua maioria, acontecem de forma inconsciente por aqueles que se sentem inseguros com seu próprio corpo e/ou até mesmo com a aparência e tamanho do seu pênis. Penso que é um desafio ultrapassado quando ele se permite ter o desejo de ser fotografado, apesar de toda a pressão que rola principalmente no universo gay, e um outro desafio que é se libertar da vergonha, das amarras, das inseguranças que o corpo provavelmente está cheio. Quando falo deles, também falo de mim. Se for pra falar de uma maneira geral, independentemente dos gêneros, as torções trazem esse lirismo, mas geralmente são causadas para esconder alguma parte do corpo… uma parte que sempre são destacadas por saírem do padrão, fortemente reprimidas ao longo da vida".

TEMPERO DA CARNE - COMO PARTICIPAR?

O Tempero da Carne é um projeto de nudez total e a participação é aberta a todas as pessoas maiores de idade, sem pré-entrevista. Alguns ensaios partem de convites e trocas artísticas, outros por modelos que possuem interesse em fazer parte da proposta. Esse projeto é totalmente independente, desde sempre. Mas isso tem um custo, claro! Só para o leitor ter uma ideia... Não é com um saquinho de 45g de colorau vendido no supermercado que o ensaio vai dar certo. São quilos e quiilos de temperos e todo esse material é custeado por Julio.

"Inúmeras vezes, recebi mensagens com discursos semelhantes como 'amo muito esse projeto, se precisar de modelo me chama!', 'me tempera!' ou 'quero muito fazer parte!', que desaparecem quando eu explico que esse é meu trabalho e envio o orçamento. A fotografia é o meu trabalho e viver tem um custo, pra todo mundo. O artista independente precisa do apoio dos seus admiradores. Principalmente na hora de contratar seus serviços! Sou eu que compro os temperos, que preparo a locação antes e depois, que edito todas as fotos e vídeos, que faço todas as artes e legendas, que inscreve o projeto em editais e exposições… "

Filipe Celestino, Jéssina Nunes, Raquel Rosa e Tiago Cintra Cintra

A fala de Julio exposta acima mostra a grande dicotomia na relação do artista contemporâneo e de seus seguidores nas redes. Há a admiração, mas também pouquíssimo conhecimento sobre a aplicabilidade prática pra se desenvolver um ensaio com qualidade. Existe a pré-produção, a produção e a pós-produção. Por mais que alguns ensaios tenham sido feito por convites diretos a outros artistas e parceiros conhecidos, vale lembrar que falar de dinheiro, de custos e de divisão de gastos também deve deixar de ser um tabu. Quer participar? Julio está super disposto a conversar, mas já pense que isso, naturalmente, terá um custo. Já viu o preço do açafrão no varejo? hehe

RESPOSTA DAS REDES SOCIAIS

O Tempero da Carne tem forte engajamento no instagram. Um amigo participa, compartilha o post, outro amigo artista se interessa e passa a seguir e aí forma-se uma corrente de seguidores que gostam de fruir a obra, seguidores que querem participar das novas edições e de seguidores artistas que querem trocar ideias e formar uma rede de apoio entre diferentes agitadores culturais. Obviamente, para o Instagram é preciso embaçar algumas imagens, ter cortes estratégicos para que a postagem não seja denunciada... Uma série de questões.


"A escolha das fotos pra postagens segue um caminho contrário do comum. Busco mostrar as formas dos corpos diversos que compõem o projeto e quase sempre quando aparece no feed um corpo que a sociedade definiu como padrão, os likes, comentários e os pedidos de fotos sem censura aparecem aos montes. Acredito que o alcance e números que tenho hoje se dá por conta da diversidade dos corpos. A busca por corpos padrões e sexualizados é alta. Decidi que, por enquanto, fotos sem censura só serão exibidas em exposição e que as fotos em expostas serão, em sua maioria, de corpos não padrão. É preciso normalizar e educar nosso olhar pra aceitarmos o corpo-história do outro com respeito", finaliza.

Com o retorno dos ensaios em breve, Julio Leão pretende encaminhar encaminhar o projeto ao fim dessa pesquisa dos corpos com os temperos e produzir um livro-arte-experiência com retratos, relatos e mais elementos que fazem parte de toda essa imersão.

Julio Leão, o criador.

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*Todas as fotos presentes nesta matéria são de autoria de Julio Leão.

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