• Josuel Junior - Editoria

PRECISAMOS FALAR DE... CELESTE SILVA

Por muitos anos, ela circulou pelos bastidores do Teatro Dulcina exercendo as mais diferentes funções. Figura cativa de Brasília, fez parte da vida de dezenas de estudantes da FBT, sempre atenta e disposta a ajudar. Hoje está afastada do trabalho e talvez espere uma ligação sua ou até uma mensagem de carinho. Precisamos falar de Celeste Silva.

Celeste conhecia o teatro e a faculdade Dulcina como a palma de sua mão. Acompanhou a trajetória de dezenas de estudantes que passaram pela FBT. Ela era, aliás, o elo que ligava diferentes gerações. Amigos meus mais velhos sempre diziam que tinham alguma história com Celeste. Na verdade, todo mundo tem uma história com Celeste.


A conheci quando entrei na Faculdade Dulcina em 2007. Havia uma funcionária bem carrasca, chamada Dona Raimunda (ela era o cão). Em antítese ao comportamento bruto de Raimunda, havia Celeste, que amenizava as relações dos estudantes com a parte administrativa da instituição. Tive contato maior com ela quando Bob Rodrigues e eu eu fizemos um seminário sobre os anos 80. Um projeto ingênuo que ganhou repercussão além do previsto e que se estendeu por alguns semestres. Celeste começou a nos mostrar o que nem todo mundo tinha acesso: os corredores improváveis, as passagens secretas que ligavam o teatro à faculdade, a marcenaria, a casa de máquinas... Ali pude ver como era doce e querida.

Em minhas aventuras de estudante de artes, Celeste sempre foi a pessoa pra quem eu pedi socorro, fosse pra me ajudar com as mais mirabolantes ideias ou pra dividir comigo horas de papo nos camarins. Já pedi à ela que fizesse um caldeirão de café pra que eu tomasse banho durante uma performance, que vasculhasse o almoxarifado em busca de um fio ou uma vitrola antiga, sem contar nas disputas para ver quem matava mais baratas que habitavam o subsolo.


As passagens secretas do Teatro Dulcina são muitas. Tem as que levam aos estúdios de áudio, aos laboratórios tecnológicos e aos quartinho com fios, tomadas, extensões e aparelhos antigos. Inexplicavelmente, ela sabia quem tinha doado cada coisa, quando e qual foi a última peça que usou uma ou outra extensão remendada.


Como eu era bolsista, passei a ficar muito tempo no Teatro Dulcina. Estudava de manhã, ia para o IESB pra montar um filme à tarde e voltava à noite pra FBT pra produzir os eventos da faculdade. Disso não posso reclamar. No período em que estive por lá, a faculdade me proporcionou ótimos cursos extras de interpretação e de produção. Em contrapartida, eu não pagava a mensalidade e produzia todo e qualquer evento artístico da instituição. Nessa brincadeira, durante 5 meses dormi no camarim 6 do subsolo. Lá eu tinha um forninho, um colchão e usava o guarda-roupa. Quase uma kitnet. Voltava pra Samambaia pra lavar tudo aos finais de semana e na semana seguinte ia de novo ficar sozinho naquele prédio imenso. Como Celeste morava longe e alguns ensaios de espetáculos terminavam tarde demais, ela também dormia lá, às vezes. Ela me ensinou os esquemas dos alarmes e mostrou as áreas internas onde não se podia entrar pra ele não armar. Isso alimentava em mim toda a empolgação por aqueles misteriosos corredores. Sério... não sei contar quantas pizzas e garrafas de coca-cola consumimos nas noites que pareciam sem fim. Tanto que quando fecho os olhos e penso em Celeste, vejo nós dois proseando no fosso do teatro atentos às batidas na portaria. A qualquer momento nossa pizza chegaria. E quando a pizza não vinha porque o entregador tinha medo de entrar no CONIC depois das 23h? Se não tivesse o bom e velho miojo por perto, dormíamos em jejum até o dia seguinte.

Devo a minha formação à minha família, aos meus professores e mestres e à Celeste. Era tanta história que ela sabia sobre a já idosa Dulcina, sobre os estudantes que saíram de lá e tiveram sucesso na carreira e sobre as gelatinas coloridas pra iluminação que ela guardava com carinho e nos emprestava nos espetáculos e experimentações cênicas.


Numa noite, em 2010, ela precisava muito ir pra casa e não conseguiu pegar o ônibus. Eu havia atrasado todo mundo porque cismei que iria raspar meu cabelo no camarim após a temporada de "Dia de Visita", espetáculo popular na época. Por culpa minha, ela perdeu a última linha. Não sei o que houve, como se deu tudo, mas acho que convenci Rafael Soul a levá-la comigo até sua casa... que era longe... Meu Deus, como era longe! Pra lá de Planaltina, eu acho. Chegamos numa rua apertada por volta da meia-noite. Um casebre pequenino, simples, precisando de ajustes e num lugar muito isolado. Então pensei: Todos nós de Brasília que falamos de teatro mencionamos Celeste como uma figura que amamos e que conhece muito dos bastidores da produção cultural da capital. Se ela representa nosso teatro, como pode ela não morar bem? Como pode passar por necessidade? No fundo, no fundo, achei incoerente enaltecermos a querida Celeste e, por uma realidade triste da gestão financeira do Teatro Dulcina, ela não viver com o mínimo de zelo e conforto proveniente do trabalho exercido lá.


Me formei, voltei à faculdade para executar alguns projetos e toda vez a encontrava. Como a gente conversava! E o cafezinho tava sempre fresco. Eu me sentia importante por entrar com ela nos lugares em que poucos podiam entrar. Aí a temporada acabava e ficávamos mais um tempo sem contato. Até que em outros projetos e retornos ao teatro fui percebendo que Céu estava envelhecendo, ficando debilitada, por vezes, com aspecto cansado, doente. Não entendo bem o que houve, mas acredito que uma infecção bucal a afetou bastante. Nas últimas vezes, soube que ela estava passando necessidade. O salário já não entrava mais, havia uma ligeira esperança de que a situação de pagamento de funcionários se ajustasse... e ela ia levando. Foram realizadas algumas vaquinhas entre colegas das artes para a compra de mantimentos básicos pra ela.

Voltei mais uma vez ao Dulcina e Celeste já não sorria como antes. Olhava pra gente com olhar baixo, tímido... A correria me impossibilitou de parar e falar mais com ela. Comecei a trabalhar intensamente com televisão e isso mudou muito a rotina. Minhas aparições lá diminuíram. Das poucas coisas em que conversamos nessas últimas idas minhas lá, tem uma frase dita por ela da qual não me esqueço:

_Josuel, tu lembra das pizzas que a gente comia aqui no subsolo?


Eu respondi que sim, claro! E que era muito legal. Ela completou:

_Josuel, se um dia você fizer um documentário sobre a Dulcina, cê me chama pra eu dar uma entrevista? Eu tenho tanta coisa pra dizer, Josuel.


Parei, olhei pra aquela mulher que foi determinante em minha vida e disse que se acontecesse de gravar um documentário, ela iria me ajudar a escrevê-lo. Ela sorriu e nos despedimos.


Soube um tempo depois que a necessidade fez ela sair do teatro que tanto conhecia. Celeste foi afastada. Não cabe a mim saber, julgar ou querer investigar o motivo. O que sei é que ela saiu. Trabalhou naquele espaço por mais de 25 anos, porém, sempre na informalidade. Em 25 anos não teve sua carteira assinada corretamente. Ela recebia conforme o dinheiro entrava no caixa da Fundação Brasileira de Teatro. Ainda tentou se aposentar, buscou auxílio junto à Previdência Social, mas não deu certo. O Dulcina não pagou o INSS dela. Sem contribuição pra receita federal, sem chance de aposentadoria. Saiu sem seus direitos trabalhistas. São esses azares da vida, neh?! Hoje vive de um acordo feito junto ao Dulcina. Recebe mensalmente um valor pequeno na esperança de que as coisas se resolvam.

Festival de Arte Efêmera - O sorriso é lindo, mas não se engane... Muitos nesta foto estavam acordados há mais de 24h e nunca receberam o pagamento pelo trabalho.

Desde então, toda vez que vou ao Dulcina a equipe é diferente. E como a equipe é diferente a cada ano, dá até um pouco de preguiça de tentar conversar. A gente chega e em algumas ocasiões nos tratam de maneira muito desconfiada. Isso acontece porque, muito provavelmente, quem assume um posto lá não fica por muito tempo, geralmente desiste... seja por falta de condições de trabalho ou porque aparece uma oportunidade mais próspera fora de lá. A rotatividade de funcionários no Dulcina faz com que tudo naquele espaço tenha aspecto temporário. Uma pena.


Dia desses liguei pra Celeste e perguntei onde estava morando. Parece que é no Gama, não lembro bem. Eu disse que queria visitá-la e trocamos vários áudios de Whatsapp. Ela ficou contente, agradeceu pelo contato, mas disse que vai muito ao médico e que é difícil pra ela marcar um dia certo. Eu tô devendo essa visita e esse abraço. Na verdade, acho que nós, artistas, produtores e ex-estudantes do Dulcina, devemos esse abraço à ela. Domingo passado conversamos mais um pouco e ela disse:


"Agradeço por tudo que eu sei. Eu só queria que resolvessem a minha situação no INSS. Eu dei entrada na aposentadoria, mas não consegui. Não tá pago, neh?! Mas fico muito feliz. Que Deus abençoe vocês na jornada de vocês. Tudo o que aprendi foi com vocês. Tenho tanta saudade. Vocês fazem parte da minha vida."

CELESTE SILVA



Encerro esse texto dizendo pra você que foi meu colega ou que estudou na Faculdade Dulcina que Celeste, por enquanto, não pode trabalhar, mas se você tiver alguém que precise de um porteiro, de um faxineiro, o esposo dela está disponível, viu?! E ligue pra ela! Mate a saudade dessa mulher tão querida por todos nós. Caso você queira falar com ela, anote o número e mande uma mensagem para +55 61 8592-3904.


Precisamos abraçar Celeste Silva.

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