POR QUE "MEU BEM MEU MAL" É TÃO BOA E TÃO RUIM?

Quando duas atrizes saem do elenco, a história se perde por completo. Dá até pra entender porque Lídia Brondi abandonou a carreira depois dela. A novela que retornou nesta semana no Globoplay é uma das piores da TV brasileira... e é por isso que a amamos tanto!

"Meu Bem, Meu Mal" é uma novela toda errada. Tooooda errada! A começar pela escalação do elenco. Os intérpretes não casam com os papeis. Escrita por Cassiano Gabus Mendes ela tem algo de inconfundível: um texto refinado, cenários ultra modernos pra época e uma trama aparentemente simples. Eu disse aparentemente.


Em suma, "Meu Bem, Meu Mal", conta a história da família Venturini, que tem uma empresa de publicidade. Nesta empresa, os sócios Ricardo Miranda (José Mayer) e Isadora Venturini (Silvia Pfeifer) vivem querendo acabar um com o outro. O dono da empresa é Dom Lázaro (Lima Duarte), um italiano poderoso, quatrocentão, tradicionalista. Aí Isadora contrata a prostituta Ana Maria (Luma de Oliveira) para fazer com que Ricardo se apaixone por ela e, assim, possa destruí-lo, num plano que não fica muito claro pra que que serve.


Do outro lado da história, no núcleo pobre, tem a jovem Fernanda (Lídia Brondi), que namora o filho de Isadora Venturini, Marco Antonio (Fábio Assunção). Logo no primeiro capítulo, Isadora, a mãe possessiva, dá um cheque para Fernanda no intuito de que se afaste de seu filho. Humilhada, a moça se queixa à sua mãe, a manicure Berenice (Nivea Maria), que conta, indignada, a história para uma de suas clientes, a riquíssima Mimi Toledo (Isis de Oliveira), que também foi humilhada por Isadora no passado. Pois bem... Mimi e Berenice chamam o pobre rapaz Doca (Cassio Gabus Mendes) para se fingir de rico e namorar a outra filha de Isadora ventura, Vitória (Lizandra Souto). Olho por olho, dente por dente. Até aí, tudo bem interessante, até que...


1 - Luma de Oliveira engravida e sai da novela assim, do nada. Por mais de um mês, sua personagem é retratada apenas por telefonemas e dublagens de outra pessoa. Aí inventam uma história de que ela se apaixona por um cara e a esposa dele, enciumada, a mata (de costas), para a gente não ver o rosto da dublê. Com isso, a ira de Isadora para destruir Ricardo Miranda se esvazia. Perde o porquê.


2 - Isis de Oliveira, irmã de Luma, não combinou direito com a produção da novela que iria passar as festas de fim de ano fora. Só que teve gravação e ela não compareceu. Foi demitida. Quem bolou toda a vingança de fazer o Doca se transformar num rico de mentira para seduzir a filha de Isadora foi ela. Quando ela sai da novela, eles tentam encontrar justificativa e ela se perde mais ainda. Criam então pares românticos fora de lógica para dar seguimento à história.

TV Globo

Esses dois desfalques comprometeram a espinha dorsal da novela, que só ganha fôlego novamente no penúltimo mês quando Dom Lázaro flagra Isadora e Ricardo se beijando no cemitério. Sim... Eles, na verdade, eram amantes. Uma relação de amor e ódio, tapas e beijos. O patriarca sobre um AVC e fica preso à uma cadeira de rodas. A enfermeira Elza (Zilda Cardoso) passa a ajudá-lo... e no capítulo 158, exibido em 30 de abril de 1991, numa cena banal, ela pergunta se o homem prefere comer mamão ou melão no café da manhã. Com as sequelas, ele não conseguia se expressar, até que consegue dizer a frase: "Eu quero melão... Enfermeira, eu prefiro melão!". Pronto!!! A novela "Meu Bem, Meu Mal", passou a ser a novela do "Eu quero melão". Essa cena foi uma reviravolta, pois os espectadores sabiam que Dom Lázaro estava se recuperando e a vilã Isadora, não. Enquanto ela confessava suas barbaridades para ele, acreditando que estava surdo, ele guardava tudinho pra se vingar depois. E foi assim até o final.


É uma novela estranha. Ela é ruim, mas é um clássico. Um clássico ruim, que a gente assiste e pensa: Que novela chata. A questão é que é maravilhosa de se ver. Não tem explicação...


UM BEM

A novela tinha uma abertura fantástica com peças publicitárias requintadíssimas e uma versão de "Meu Bem, Meu Mal", de Caetano Veloso, na voz de Marcos André.

UM MAL

Já procurei Marcos André no Google e ele, simplesmente, não existe.

UM BEM

As capas das trilhas sonoras. A primeira com Luma de Oliveira e a segunda com Mylla Christie. Elegantérrimas e bem clássicas. Lembro delas nas lojas de discos nos anos 1990.

UM MAL

A trilha sonora tão mal escalada quanto o elenco. Na nacional tem umas coisas muito discrepantes. O lado A tem a abertura, tem Ivan Lins, Beth Carvalho, mas dá vontade de dormir. O lado B a gente nem consegue escutar. Desiste no lado A. Já a trilha internacional tem músicas boas, mas totalmente subaproveitadas na novela. Quase não tocavam, na verdade. Na última semana é que foram jogando elas aleatoriamente para todas as cenas de transição. Não dá pra saber, por exemplo, qual música era tema de quem. Eis que no último capítulo, tocam "Unchained Melody" com-ple-ta para mostrar a solidão de Isadora, que se torna sócia majoritária da Venturini Designers.


UM BEM

A cena final da novela. Super diferente, melancólica e moderna. Um clipe mostra Isadora reinando absoluta no império dos Venturini. Solitária, triste e poderosa, ela passeia por todos os cenários moderníssimos da empresa de publicidade, entra no carro e diz ao motorista que vai pra casa. Chove e um raio ilumina a rua. FIM. Mais noir impossível.

UM MAL

Que final tosco do caramba! A novela termina assim mesmo?


UM BEM

Os cenários! Nunca na minha vida eu vi tantas linhas retas e curvas num cenário de novela. Era super futurista, claro e com muitos elementos artísticos que davam um caráter inovador ao vídeo. O G1 revelou que telas de artistas brasileiros faziam parte do cenário do núcleo rico da novela e que o cenógrafo Mário Monteiro e a produtora de arte Kaká Monteiro selecionaram obras de nomes como Tomie Othake, Roberto Magalhães, Sálvio Dare, Adriano Margiavacchia e Mônica Barki.

UM MAL

Os cenários incríveis estavam em núcleos de personagens chatos. Meu Deus, que preguiça! Era tanta gente chata tomando Whisky enquanto tocava uns instrumentais melancólicos...


UM BEM

O moço humilde Doca aprendendo a ser rico tomando sopa e comendo escargot. As aulas de etiqueta era muito boas de verdade

UM MAL

Do que adiantou tanta aula de etiqueta se a mulher que o ensinou saiu da novela?


UM BEM

A moda e o estilo de Silvia Pfeifer, com a faixa na cabeça e o cabelo de Ferdanda, que era igual ao da Moly, do filme "Ghost".

UM MAL

Lídia Brondi certamente odiou fazer esse papel. A personagem era frágil, mal escrita, mal colocada e tem algo bem relevante que faz a novela ser flopada: É ela quem sofre a humilhação de Isadora no começo da novela. A mãe de Fernanda é quem decide se vingar de Isadora. No entanto, Fernanda nunca comprou a briga dessa vingança. Era até contra. E isso fez com que o público não torcesse por essa vingança, uma vez que a principal vítima já havia superado esse problema. O furo no roteiro prejudicou a novela.

UM BEM

A dupla Porfírio (Gulherme Karan) e Magda (Vera Zimmermann). O mordomo e a amiga da patroa renderam cenas hilárias com um texto super ácido.

UM MAL

Porfírio e Magda tinham um alto texto de assédio moral que hoje daria raiva de ver. Havia uma objetificação do corpo feminino como puro atrativo sexual na época.


UM BEM

A revelação de que Ricardo e Isadora eram amantes.

UM MAL

Os amantes mais chatos da televisão brasileira.


UM BEM

A novela repetiu duas vezes... Uma no Vale a pena ver de novo, em 1996, e outra no Canal Viva, em 2016.

UM MAL

Pouca gente lembra das reprises.


"Meu Bem, Meu Mal" foi a segunda novela de Cassiano Gabus Mendes no horário nobre. Ele fazia muita coisa no horário das sete e vinha do sucesso retumbante de "Que rei sou eu?", de 1989. Depois da novela, fez apenas uma outra, também no horário das sete. Era "O mapa da mina", de 1993. Talvez um dia eu fale dela também.


Para quem quer ver e conhecer a história, "Meu Bem, Meu Mal" está na íntegra no Globoplay. A imagem foi modificada, a exemplo de "Laços de Família", no Vale a pena ver de novo. Mantiveram a proporção original e suprimiram algumas faixas de imagem no quadro.


*O Portal Conteúdo recebeu, após a publicação da matéria, a informação de que Marcos André existe sim! De acordo com as informações, o paraense teve seu primeiro trabalho reconhecido

no Brasil com a gravação da música ‘Meu bem, meu mal’ para a abertura da novela e que o single fazia parte de seu primeiro LP, ‘Olhar e segredo’ – Warner Continental, conforme

notícia de 2009 do site http://infoparauara.blogspot.com/.

Para ouvir o Spotify do artista, clique aqui!


1/5

© 2019 - Conteúdo - Portal de Cultura e Arte de Brasília e do Brasil

 Editado por Josuel Junior e colaboradores       I     Web Designer: Caio Almeida

  • Instagram B&W

Para sugestão de pauta, envie release o e-mail:

falecomportalconteudo@gmail.com