"GAIVOTA", DE TCHÉKHOV - DO PALCO PARA O MEIO DO MATO

Com direção de Gabriel Fernandes e Bete Coelho, que também interpreta Arkádina, a peça clássica recebe contornos brasileiros em nova adaptação para teatrofilme, linguagem que integra os formatos audiovisual e cênico.

Still de ‘Gaivota’ com Luiza Curvo e Matheus Campos, que interpretam Nina e Treplev.

Anton Tchékhov (1860-1904), autor que é figura central da dramaturgia do teatro russo, ganha uma versão inédita de um de seus clássicos, A Gaivota, interpretada pela Cia. BR116, que estreia no dia 12 de outubro de 2021 no canal do YouTube do grupo. Gaivota – sem o artigo “a” das traduções mais comuns – é a segunda empreitada cinematográfica da trupe que, ao longo da pandemia, tem se dedicado a testar os limites de coexistência entre o teatro e o cinema através de uma nova linguagem, o teatrofilme.

Pensar a vocação do artista, especialmente os que compõem o teatro, tem sido uma prática recorrente nas produções da Cia. BR116, que este ano celebra onze anos de trajetória. Além disso, os clássicos acompanham o desejo da companhia de estabelecer diálogos com assuntos urgentes ao debate contemporâneo.


Com a obra de Tchékhov não seria diferente. Símbolo do Teatro de Arte de Moscou, A Gaivota estabeleceu o dramaturgo em um período de grande agitação cultural na Rússia. Às vésperas da Revolução de 1917, o autor soube retratar a melancolia da época, colocar em cena os debates artísticos do período – entre o simbolismo e o naturalismo – e evidenciar a incomunicabilidade humana nas estruturas sociais. "Esta incomunicabilidade tem muita relação com a atualidade. Há um feitiço no ar em que ninguém se entende e todos vociferam", diz o diretor Gabriel Fernandes.


Gaivota foi gravada seguindo todos os protocolos de prevenção à Covid-19 em um sítio em Itu, no interior de São Paulo, onde a equipe e o elenco ficaram isolados por cerca de 20 dias. A obra conta a história de um núcleo familiar e seus agregados, enfatizando o conflito entre Arkádina (Bete Coelho), uma célebre atriz; seu filho Treplev (Matheus Campos), que pretende ser dramaturgo e escritor; a jovem aspirante a atriz Nina (Luiza Curvo), por quem ele é apaixonado; e o famoso escritor Trigórin (Flávio Rochaa), companheiro de Arkádina. Na adaptação da Cia. BR116, com tradução de Marcos Renaux, a voz de Tchékhov (Luiz Frias) também se torna personagem, operando como uma espécie de criador que guia os pensamentos e os destinos das personagens.

A experiência de Medeia por Consuelo de Castro, primeiro teatrofilme da Cia. BR116, foi fundamental para a realização de Gaivota. Medeia definiu as características da linguagem criada pela trupe, na qual a empreitada cinematográfica acontece associada aos elementos que tornam o teatro vivo e real. É através da interpretação dos atores, da dimensão da palavra e da psique humana que os diretores passaram a conduzir a dramaturgia com a câmera.


Gaivota conta com uma equipe maior e novas complexidades. O palco virou cenário e foi parar no meio do mato, invertendo o pensamento comum de colocar o campo e a natureza, onde acontece a peça, sobre o tablado. Se a obra de Tchékhov se passa no campo russo, a adaptação da Cia. recebe contornos brasileiros: é uma peça de terreiro e de bando. “Essa é mais uma Gaivota entre tantas bem sucedidas. Mas está imbuída de força artística brasileira e de beleza genuína no embate entre o novo e o velho, entre o ser e o não ser”, afirma a diretora e atriz Bete Coelho.


Montar Gaivota no Brasil de 2021 com suas especificidades evidenciou no elenco — formado por artistas de experiências distintas, incluindo atores não profissionais — uma atuação que os aproxima de suas próprias personalidades. “Os personagens surgem através de situações inusitadas, experimentadas num cenário antirrealista e de emoções focadas nas palavras e nos silêncios”, conta Bete.


O resultado pulsante e vigoroso dos atores e da linguagem do teatrofilme em Gaivota vai ao encontro do histórico da Cia. BR116, que se volta a questionar a performatividade do ser humano e as estruturas sociais que ele mesmo cria para operar. No contexto brasileiro de desmanche do setor cultural e de desdém rancoroso ao artista e à sua função, as palavras da personagem Nina sobre sua vocação como atriz coroam o momento atual da trupe e intensificam nos artistas a força da fé no teatro brasileiro.

SOBRE A CIA. BR116


A Cia. BR116 foi fundada há onze anos por Bete Coelho, Gabriel Fernandes e Ricardo Bittencourt, a partir da montagem do espetáculo O homem da tarja preta, de Contardo Calligaris (1948-2021). Fundamentados na força da coletividade e na afirmação do amor ao teatro, o grupo toma emprestada as palavras do dramaturgo e escritor Otávio Frias Filho (1957-2018) para definir sua filosofia: "O palco é onde a humanidade se reúne para falar de seus problemas mais graves, suas fraquezas mais inconfessáveis, seus exemplos mais terríveis, o único lugar onde a vida deve ser apresentada sem disfarces nem escrúpulos."


Em seu repertório estão os espetáculos como O terceiro sinal (2010), de Otavio Frias Filho, que realizou temporada histórica no Teatro Oficina, em 2018, onde recebeu mais de 2.900 pessoas e teve indicação ao Prêmio Shell de melhor atriz para Bete Coelho; e Mãe Coragem (2019), de Bertolt Brecht, montagem realizada em parceria com o Sesc. Sucesso de crítica e público, o espetáculo reuniu mais de 8.500 pessoas em sua temporada no Sesc Pompeia, foi o vencedor do Prêmio Shell de melhor direção para Daniela Thomas e recebeu indicações de melhor atriz para Bete Coelho e melhor trilha sonora para Felipe Antunes.


Bete Coelho, renomada atriz e diretora, tem em seu currículo trabalhos dirigidos por grandes diretores como Antunes Filho, Zé Celso Martinez Corrêa, Bob Wilson, Paulo Autran, Gerald Thomas e Radoslaw Rychcik. Gabriel Fernandes, cineasta, nos seus muitos anos no Teatro Oficina especializou-se na direção de imagens de espetáculos teatrais unindo o cinema e o teatro, utilizando a câmera como dispositivo cênico. Em 2020, a dupla assumiu a direção dos espetáculos em conjunto com o primeiro trabalho audiovisual, Medeia por Consuelo de Castro, adaptação do mito grego de Medeia escrita pela dramaturga Consuelo de Castro (1946-2016).


PROGRAMA DE ENCONTROS E REFLEXÕES


Durante a temporada, a Cia. BR116 irá promover encontros e reflexões em torno dos temas que circundam Gaivota, desde elementos técnicos para a produção do teatrofilme, como fotografia e cenotecnia, até diálogos e cruzamento do texto de Tchékhov com o contexto social e político do Brasil. Os encontros, que reúnem convidados especiais e artistas parceiros, acontecem através do perfil da companhia no Instagram e, também, do seu canal no Youtube. Mais informações em (www.ciabr116.com.br) e nas redes sociais (@cia.br116).


PROGRAME-SE

Temporada de 12 de outubro a 21 de novembro. Exibições pelo site da Cia. BR116 (www.ciabr116.com). Quarta a domingo, às 20h, com sessões extras aos sábados e domingos, às 15h. Gratuito. Legendas disponíveis em português, inglês e espanhol.


QUEM FAZ

Gaivota

Texto: Anton Tchekhov Tradução: Marcos Renaux Direção: Gabriel Fernandes e Bete Coelho Elenco: Bete Coelho, Luiza Curvo, Matheus Campos, Flavio Rochaa, Muriel Matalon, Diego Machado, Viviane Monteiro, Murillo Carraro, Marcos Renaux, Domingos Varela, Theo Moraes e João Carvalho Voz Tchekhov: Luiz Frias Fotografia: Rodrigo Fonseca e Gabriel Fernandes Assistente de Direção: Theo Moraes Cenografia: Domingos Varela e Bete Coelho

Assistente de cenografia: João Carvalho

Cenotécnicos: Domingos Varela e João Sobrinho

Direção de Arte: Alice Tassara Assistente de Arte e cenotécnico: Murillo Carraro

Figurino: Simone Mina e Carol Bertier Visagismo: Gabi Moraes Assistente de Produção: Diego Machado

Estagiária: Flávia Teixeira Câmera: Rodrigo Fonseca e Gabriel Fernandes

Assistente de câmera, logger e making of: Eduardo Fujise

Edição: Gabriel Fernandes Correção de cor: Rodrigo Fonseca Direção Musical: Felipe Antunes Assistente de Direção Musical: Fábio Sá

Músicos: Fabio Sá, Felipe Antunes, Allan Abbadia, Vitor Cabral, Yaniel Matos Perez e Wanessa Dourado Música Original: Felipe Antunes e Fábio Sá

Captação de Som direto: Bruno dos Reis

Microfonista: Bia Passeti

Gravação de foley: Bruno dos Reis e Adelmo Henrique Desenho de som e finalização: Rovilson Pascoal e Bruno Reis

Técnico de transmissão: Alexandre Simão de Paula

Preparação vocal: Cristina Mutarelli

Dublê Nina: Muriel Matalon

Cachorro do Sorin: Max (In Memoriam) Cozinheira: Cirlei Pereira Lopes Costureira: Judite de Lima Diretor de Comunicação: Maurício Magalhães

Comunicação: VILANO POLIDO

Estratégia digital, redes sociais e site: Fabio Polido e Rodrigo Vilano

Identidade visual: Fabio Polido

Imprensa e Redação: Rodrigo Vilano; Mariana Marinho

Assessoria jurídica: Olivieri Associados Versão para o inglês e espanhol: Marcos Renaux Direção de Produção: Lindsay Castro Lima e Mariana Mantovani Realização: Cia. BR116 Patrocínio: UOL

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