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DOCUMENTA CATÂNIA: CONFERÊNCIA DO MOVIMENTO INTERNACIONAL PARA UMA NOVA MUSEOLOGIA

Artigo Especial - A museologia pode ser uma aliada para que sociedades sejam mais justas. Esse foi o mote da conferência do Movimento Internacional da Nova Museologia (MINOM), realizada entre os dias 20 e 23 de fevereiro de 2023, em Catânia, Itália.

Eu pude participar da conferência graças ao Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC), por meio do programa Conexão Cultura, que permite que os agentes culturais do Distrito Federal se capacitem, participando de eventos estratégicos, como este do MINOM.


Mas o que é o MINOM?


Trata-se de um coletivo de profissionais de museologia e de outras áreas profissionais relacionadas ao campo do patrimônio, que praticam, se interessam e pesquisam novas práticas museológicas, nas quais os museus são atores ativos em prol do desenvolvimento local.  


A nova museologia, ou museologia social, como também são chamadas essas práticas, se diferencia da chamada museologia tradicional pois entende que o foco dos museus não deve ser o objeto, nem o prédio que abriga essas coleções. A preocupação principal dos museus, segundo esse entendimento, deve ser o patrimônio (cultural, natural, et.c), que muitas vezes transcende a materialidade do objeto, e sua relação com a comunidade e o território. Ela também  dispensa especial atenção às diferentes formas de museus, surgidos a partir da segunda metade do século passado: ecomuseus, museus de território, museus comunitários, entre outros.


A marca do MINOM, uma parede de tijolos desmoronando, representa a desconstrução que essa nova postura das práticas museológicas desencadeia. É o conceito de museu tradicional, eurocêntrico, preocupado unicamente no objeto, ainda muito comum e predominante, sendo perturbado e provocado a ser repensado.  

Como já é tradição das Conferências do MINOM, o evento principal foi antecedido por um workshop preparatório, que funciona como uma espécie laboratório, onde se tem a oportunidade de conhecer de perto um recorte da realidade local e refletir coletivamente a relação entre patrimônio, referências culturais, territorialidade, e museologia social. Nesta edição, o workshop foi realizado em Librino, um bairro de Catânia e considerado periferia da cidade, carente da presença do Estado e de serviços públicos, e que é um polo de várias iniciativas de associações e coletivos que lutam contra o abandono do bairro e contra a marginalização imposta aos moradores.


Nesses dois dias, nós ouvimos diretores de escolas locais, presidentes e integrantes das associações, e professores da Universidade de Catânia, que pesquisam e colaboram com esses coletivos. Visitamos uma intervenção urbana, a Porta della Bellezza (Porta da Beleza)  e Porta delle farfalle (Porta das borboletas), realizada em dois viadutos de uma via expressa que corta  bairro, e que juntas formam a maior escultura em baixo relevo de cerâmica do mundo. De autoria do artista Antônio Prestti, teve durante sua elaboração a participação de crianças da comunidade, que desenharam e escreveram mensagens em partes das imagens que compõe a imensa obra.

Visitamos também a sede de um coletivo de associações que ocupam um complexo esportivo deixado em desuso pelo Poder Público. Antes abandonado, ali hoje funcionam um centro de convivência, formado por biblioteca, sala de jogos, um mini cinema e uma cozinha comunitária. Fora, há uma quadra de rúgbi e uma horta comunitária, na qual famílias do bairro possuem pequenos lotes, e são responsáveis pela manutenção e plantio. 


Após essas visitasse e escutas, fomos convidados a nos reunir em grupos para nos  apresentar e refletir, a partir do que vimos e ouvimos nestes dois dias, como a museologia social pode ser útil para realidades como a de Librino.


O Brasil estava bastante representado no workshop (éramos a segunda maior nacionalidade, depois dos italianos, donos da casa). Muitos dos problemas que observamos que Librino padece são semelhantes aos que enfrentamos diariamente no Brasil, e discutimos como o poder do coletivo é forte e potente, e não raramente é o que preenche lacunas que deveriam estar sendo providas pelo Estado.

Finalizado o workshop, seguiu-se o evento principal da Conferência, realizada no Monastério Beneditino de San Nicolò l’Arena, onde funciona o Departamento de Ciências Humanas da Universidade de Catânia. A dinâmica foi um pouco diferente daquela vista no workshop, com um caráter um pouco mais acadêmico e formal.


Um destaque da plenária inicial foi a palestra do museólogo brasileiro Bruno Broulon, professor da Universidade estadual do Rio de Janeiro (Unirio). Bruno ressaltou a grande diferença entre os museus atuais daqueles do século XIX, período de consolidação do museu enquanto instituição de guarda e exposição. Algumas especificidades dos museus não se alteraram ao longo das últimas décadas, como as atividades de coleta, conservação e pesquisa, mas tantas outras surgiram, mudaram ou se incorporaram às práticas esperadas dos museus atuais, como a participação da comunidade, compartilhamento de saberes e responsabilidades, deslocamento do foco do objeto para as memórias coletivas, entre tantas outras.


As sessões paralelas, organizadas em formas de mesa redonda, contaram com a apresentação de experiências de museologia social em diferentes contextos. Como as sessões ocorriam de forma simultânea, era impossível acompanhar todas as apresentações, de forma que foi necessário priorizar os temas de maior interesse.


Acompanhei as sessões “Museologia social e a luta por uma sociedade mais justa”, com apresentações de experiências do Museu das Lutas e Ligas Camponesas, na Paraíba, e da atuação da Rede de Museologia Social do Rio de Janeiro; “Museus, Territórios e resistência”, na qual foi compartilhada a história e atuação do Museu das Remoções, no Rio de Janeiro, e do Museu Indígena Kanindé, no Ceará, ambos muito citados durante as aulas  da graduação em museologia, na UnB; e “Museus, democracia e direitos”, um tema urgente de ser discutido diante do momento político vivido no Brasil e no mundo, com relatos do Museu Nacional Resistência e Liberdade, de Portugal, do Museu Memorial Iyá Davina, localizado em um terreiro em São João do Meriti, Rio de Janeiro, e da luta pela criação do Memorial DOI-CODI, em São Paulo.

A última atividade da Conferência foi a Assembleia Geral, que discutiu e aprovou a Carta de Librino, uma tradição dos encontros do MINOM, e que mais que um legado do evento, é um manifesto sobre o que os participantes da Conferência pensam e esperam da museologia social para os próximos anos.


Esses quatro dias foram extremamente ricos e me provocaram diversas indagações e insights. O curso de Museologia da Universidade de Brasília é fortemente influenciado pelas correntes de museologia que enxergam, na museologia social, o caminho para que os museus brasileiros atinjam seus objetivos e colaborem com o desenvolvimento social. Entretanto, essa foi a primeira vez que me deparei com tantas realidades e experiências juntas, mostrando como a museologia social é diversa, é potente, e que muitas pessoas e coletivos fazem a museologia social no seu dia a dia, e que ela tem colaborado, por meio da memória e patrimônio coletivo, para que as sociedades se tornem mais justas.


Marino José Ferreira Alves

Museólogo, licenciado em Ciências Biológicos, servidor público e pesquisador independente



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