CENÁRIO CULTURAL - O QUE PENSAM OS ESTUDANTES DE ARTES?

Muito se tem conversado sobre a opinião dos artistas de Brasília a respeito da crise no setor cultural, mas e como fica a questão dos estudantes de artes do DF? O Portal Conteúdo conversou com alguns deles.

O estudante Claudio Gabriel - Reprodução: Rede Social

A crise no setor cultural e artístico do Brasil não precisa de apresentações. Em Brasília, após uma guerra travada entre a classe e o ex-secretário de Cultura e Economia Criativa, Adão Cândido, desgastou o cenário cultural, atravancou projetos e a abertura pública para com os agentes culturais da cidade. Agora, com o novo secretário Bartolomeu Rodrigues, o diálogo com a categoria volta a acontecer, ainda que muito lentamente. A criação de novos editais dão um pouco de respiro aos fazedores culturais, embora nem de longe tranquilizem o setor.


Pois bem... Se a Secretaria de Cultura e Economia Criativa trabalha em prol da manutenção da arte e da cultura local do DF e a Secretaria de Educação trabalha em prol dos estudantes, quem olha propriamente para os artistas em formação?


Em Brasília existem sete cursos acadêmicos voltados à formação artística. Três deles estão na UnB (Música, Artes Cênicas e Artes Visuais - com desdobramento entre licenciatura e bacharelado). Já a Faculdade de Artes Dulcina de Moraes tem os cursos de Artes Visuais e Artes Cênicas (também com seus desdobramentos). O IESB, por sua vez, tem o Curso de Teatro. *Há também o curso de Licenciatura em dança do Instituto Federal de Brasilia - IFB Campus Brasilia. No caso do IESB e do Dulcina, por serem instituições particulares, as estratégias acadêmicas são de responsabilidade dos campus, tanto na concessão de descontos e bolsas, quanto nos processos metodológicos, respeitando, claro, as diretrizes do MEC. Quem estuda na UnB, por exemplo, pode contar com outros processos assistenciais, como bolsas para pequisa acadêmica - uma verba pequena que auxilia alguns estudantes.


Por mais que alguns estudantes de artes já trabalhem profissionalmente fora da faculdade, eles continuam dependendo da formação para seguir suas trajetórias pessoais, visto que foi uma escolha entrar numa instituição de ensino superior. Porém, surge uma dúvida: O que eles estão fazendo para passar por essa fase da pandemia que requer quarentena e distanciamento social? O Portal Conteúdo conversou com alguns desses estudantes.


Priscila, João, Samuel e Yan - Reprodução: Internet

Priscila Fragoso tem 26 anos e está no último semestre de Artes Cênicas na UnB. Para concluir o curso, ela precisa apenas terminar o seu TCC. O aproveitamento, segundo ela, é afetado, tanto por questões estruturais, quanto pela própria ansiedade trazida pelo momento. Priscila é vice-presidente do Centro Acadêmico e, como solução paliativa, tem planejado lives para que os estudantes tenham oportunidade de falar de suas experiências, promovendo alguma interação e atividade no período de isolamento.


"É difícil visualizar como vai ser daqui para frente. A Universidade não tem data pra voltar, nem os teatros. Esse já era meu ofício em tempo integral. Não abandonei minhas pesquisas e projetos e, no meu tempo, tenho dado andamento a eles. Daqui pra frente tudo vai ter que ser adaptado. Ser artista/pesquisador da cena vai ter outros moldes.", comenta.


João Ricken tem 22 anos e está cursando o último semestre do bacharelado em Artes Cênicas na UnB. Ele é ator, diretor e dramaturgo e já possui algumas experiências fora da universidade. Ele e outros artistas do Coletivo Truvação de Teatro estavam montando o cenário e a iluminação do espetáculo "Dentro", que entraria em cartaz no Espaço Cena, quando foram pegos de surpresa com a notícia do cancelamento das atividades artísticas no DF. De acordo com ele, o Espaço Cena honrou os compromissos de cachê e ainda encontrou uma maneira de dar continuidade ao projeto de ocupação, disponibilizando a peça através do You Tube. Com uma visão bem responsável sobre seu papel como estudante, comenta:


"Tenho me sentido bastante impotente ultimamente e certamente reconheço que não consigo falar em nome de outros artistas universitários, principalmente pensando em pessoas que foram prejudicadas financeiramente e de forma direta pelos cortes em bolsas do Programa Institucional de Iniciação Científica (PIBIC), por exemplo. Os cortes afetam exclusivamente as pesquisas em áreas de Ciências Sociais, Artes e Humanidades. Felizmente, tenho uma realidade na qual posso contar com o apoio da minha família para me manter nesses tempos, mas sei que muitos se desdobram para se sustentar enquanto dão conta de um curso universitário e de demais projetos e demandas."


O semestre letivo da UnB segue suspenso e outro estudante afetado com o novo contexto social é Samuel Mairon, que cursa o sexto semestre da Licenciatura. Sobre a questão das bolsas no CNPq, ele recorda que, de acordo com o programa, as pesquisas podem até acontecer, mas apenas as áreas de ciência e tecnologia serão financiadas.


"É uma forma de ataque ao pensamento crítico. É uma medida que reflete o caráter tecnicista e utilitário que o atual governo quer dar ao ensino superior brasileiro. A verba que eu recebo na minha bolsa é usada nos experimentos e na compra de livros. Ou seja, se no próximo edital eu não receber bolsa, os meus experimentos não poderão ser realizados adequadamente.", reflete o estudante.


O ator, comediante e estudante do quinto semestre de teatro no IESB, Yan Pádua, tem 28 anos. Antes do teatro, cursou cinco semestres do curso de cinema, mas não chegou a concluir por buscar conhecimento artístico prático. Na mudança para o curso de teatro, diz ter encontrado mais respostas às suas necessidades criativas. A pandemia surgiu num momento crucial na carreira do ator.


"Nos vimos tendo que escolher entre trancar o curso ou estudar remotamente, o que para um curso 100% prático parece ser absolutamente inviável. Seria inviável, se não fosse pela resistência incansável dos nossos mestres, que estão nos instruindo da melhor forma possível.".


O estudante lembra que os medos e as aflições sociais reverberam muito nessa fase, porém, acredita que a visão sobre o consumo da arte pode ser positiva futuramente. Segundo ele, as pessoas estão percebendo o quanto a arte é essencial para a vida delas.


"Atores fazem muito com pouco. Agora, que temos quase nada, estamos fazendo mais ainda. Estamos nos apropriando das redes sociais para produzir. Percebo uma diminuição e interrupção de vários projetos e o governo nunca vai nos ajudar, mas, apesar dos pesares, acredito os artistas sairão mais fortalecidos disso tudo, agora munidos com o know-how das redes sociais e percebendo que pode se fazer muito com pouco. Sairemos de casa com mais coisa pra mostrar e mais vontade.", finaliza.


Gabriel, Stefany, Luiz e Dogi - Reprodução: Internet

Cláudio Gabriel tem 21 anos e estuda Teatro no IESB e Teatro Musical no Instituto Belas Artes. O ator, bailarino, palhaço e produtor está no sétimo semestre e estava em processo inicial de montagem de dois espetáculos. Ele conta que após a suspensão das aulas presenciais, sentiu dificuldade de lidar com os ensaios práticos pela internet nos primeiros dias e que, aos poucos, foi se familiarizando com a condição temporária.

"Apesar do lado negativo da quarentena, foi possível me adequar a uma rotina menos acelerada. Estou fazendo um laboratório íntimo e buscando me entender enquanto artista, entendendo minhas dificuldades e trabalhando em cima delas, entendendo minhas motivações e objetivos. Também estou fazendo cursos online de interpretação e canto, cursos que eu não poderia fazer pessoalmente, pois não conseguiria me deslocar ao local.".


Gabriel Pogó, estudante do oitavo semestre do IESB, tem acompanhado grupos de Brasília e de fora através de peças online, entrevistas e debates com artistas para aproveitar o tempo em casa.


"Nós do IESB, a partir de iniciativa de professores e alunos, estamos trabalhando nossa criatividade a partir de exercícios/desafios feito pelos professores. Tem sido bacana e estão saindo vários trabalhos lindos. Como vai ser depois que me formar? Se Deus quiser, pretendo dar aulas em lugares pouco acessíveis ao teatro.".


Stefany Mota tem 24 anos e cursa o terceiro semestre do curso, também no IESB. Ela comenta que está tendo aulas online e lendo o que os professores pedem como pauta avaliativa. Além do conteúdo artístico, a estudante está em busca de outros conteúdos fora dos pedidos acadêmicos, pois assim consegue ter um equilíbrio melhor sobre o que pesquisar, consumir ou fruir durante a quarentena.


"Faço apresentações físicas conforme a orientação do professor, o que exige uma paciência redobrada e que, particularmente, não me agrada porque teatro pra mim é contato direto. A sensação que tenho pós-pandemia é de começar tudo do zero. Embora tudo isso não tivesse sido combinado, esse é o lado que apoio no meu otimismo. Estou usando esse momento para sepultar minhas dores pra fixar melhor minha autenticidade sobre o que é a verdadeira conexão universal.".


Luiz Ramos tem 29 anos e cursa o sétimo semestre do Curso de Teatro do IESB. Tem usado a poesia e a criatividade para criar e publicar vídeos no YouTube, no intuito de se manter firma como ator e comunicador. Ele acredita que a prática com novas tecnologias vai potencializar o ofício, a coragem e a expertise do ator no período posterior ao confinamento social.


"Mesmo com a pandemia, continuei ensaiando (remotamente) a montagem acadêmica da disciplina de Montagem I com os meus colegas de classe. Estamos ensaiando a peça 'Por Elise', de Grace Passô. Tivemos que nos adaptar para ensaiar e estamos utilizando o recurso online com encontros semanais para manter o processo de criação ativo.".


Outro caso é do ator Dogi Lima. Ele tem 27 anos e trancou a faculdade no IESB no sexto semestre. Enquanto não volta, está aperfeiçoando seu canal no YouTube com a aquisição de novos equipamentos de gravação, alterando a estética do canal e propondo um conteúdo mais leve e cômico. É dessa forma que ele espera por dias melhores no país. Dogi fez uma colocação importante para que entendamos as dificuldades de entrada do estudante de artes no mercado de trabalho:

"No início da pandemia, com aquela parada brusca das atividades gerais eu senti um espaço para produção. A cada passo eu criava um poema, um vídeo, uma música... mas, o tempo foi se passando e meu corpo foi ficando mais cansado, exausto, trocando o dia pela noite e as ideias simplesmente foram embora. Minhas participações em editais se tornam limitadas porque sou iniciante e ainda aprendi pouco. As peças que estavam previstas para entrar em cartaz foram canceladas (obviamente), gerando uma quebra de expectativa tanto de conquista de público quanto financeira.".


A iniciativa de dialogar e de colocar o ponto de vista de estudantes de artes de Brasília e regiões nessa matéria vai de encontro às necessidades de toda uma cadeia produtiva no segmento de arte e cultura. O Portal Conteúdo acredita que incentivando novos artistas em formação, o diálogo com a categoria só tende a melhorar com o passar dos anos. Agora, falando como editor e idealizador do site, sinto a obrigação de dizer que, como estudante de arte, tive incentivo de grandes nomes do teatro e da televisão que me auxiliaram nas buscas incansáveis por uma melhor comunicação com o público e com os fazeres do ofício. Seria injusto e incoerente não propor a mesma ponte com a nova geração.


Vai passar... Vai passar!


*Matéria atualizada em 22 de maio com correção a respeito da quantidade de cursos superiores em Arte de Brasília.

**O Portal Conteúdo não conseguiu resposta dos estudantes da Faculdade de Artes Dulcina de Moraes após chamada pelas redes sociais.

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