BORDADOS COM MUITA ACIDEZ, CRÍTICA SOCIAL E POESIA

Há um movimento belíssimo na internet em que artistas falam das fragilidades masculinas, quebrando estereótipos e gerando reflexão do público da internet. Tolentino Ferraz é um desses artistas e tem feito sucesso nas redes com bordados diferentes.

Em 2020, o Portal Conteúdo teve contato com diferentes artistas que têm mostrado uma maneira mais sutil de entendermos as fragilidades e potências masculinas, discutindo questões importantes da contemporaneidade. É uma rede que se forma e que nos faz entender que há um movimento forte desses homens que nos ensinam muito sobre a importância da leveza nas relações interpessoais, tendo a arte como ponto de partida.


Wilton Oliveira, com seu "Men in charcoal", faz trabalhos incríveis com a nudez em carvão; Arthur Scovino apresenta instalações, performances, fotografias e ilustrações que provocam o público; Willy Costa surpreende a cada semana com maquiagens artísticas de uma potência inexplicável; Helder Amorim mostra a evolução de sua pesquisa em xilogravura questionando padrões de masculinidades. Na matéria de hoje, falaremos de Tolentino Ferraz, que usa bordados estilizados para falar da sociedade, de si mesmo, como homem sensível, e de todos nós, como observadores sedentos por doses de poesia nas redes.

Acervo pessoal do artista

Sigo Tolentino Ferraz, ou Tó (como assina seus trabalhos) desde que uma matéria sobre o projeto "Men in Charcoal". Passei a observar os seguidores da página e quem a seguia para abrir uma nova rede de observação pela internet. Aos poucos, foi possível perceber a potência de seu trabalho nas redes. As produções de Tó envolvem muito afeto e nascem de um lugar muito especial, pois ele sempre teve contato com o artesanato mineiro. Veio de uma cidade do Vale do Jequitinhonha,/MG chamada Medina. Lá, desde a infância, teve a influência de sua mãe, de avós e tias. Bordados, crochês, tricôs, costuras permearam sua vida desde sempre.


"Eu fazia aplicações em roupas, criava figurinos de teatro (outra área que sempre estive ligado), mas nas artes plásticas comecei com desenhos a lápis de cor. Depois, já na adolescência, tive contato com pintura a óleo e acrílica. Até meus vinte e poucos anos eu seguia como pintor de quadros, e, ao mesmo tempo, iniciava uma graduação em Artes Cênicas em Ouro Preto. Depois que eu formei, voltei para Belo Horizonte e comecei a trabalhar num museu. Foi lá, em 2015, que tive contato com a obra do artista José Leonilson e me apaixonei. Eu já conhecia o Bispo do Rosário desde a faculdade e ficava encantado com sua vida e obra. No entanto, foi com Leonilson e com a delicadeza e a poesia de sua obra que me senti inspirado a também criar meus bordados."

Série "Homens"

Nessa época, Tó passou a usar o feltro e bordava coisas simples, como palavras, frases e algumas imagens. Depois de um tempo, começou a estudar na Escola Guignard – UEMG, onde adotou novos tipos de tecidos e investiu em trabalhos mais elaborados, produzindo releituras de artistas como Van Gogh, Frida Kahlo, Tarsila do Amaral, Portinari, Basquiat e o próprio Leonilson.


"Isso me ajudou a ter uma dimensão do que eu era capaz de fazer e, assim, pude avançar tecnicamente mais preparado para minhas memórias, que passaram a ser minha matéria prima. Recebi bons conselhos na faculdade, o que me deu confiança para fazer trabalhos maiores e mais ousados. Na minha pesquisa, sempre tive a figura humana como um norte. Em muitos dos trabalhos, eu coloco o meu corpo como objeto central, como um objeto de investigação. E desse modo, deposito muito dos meus sentimentos, pensamentos sobre a vida e a morte no que eu faço. Eu bordo minha existência. E sendo um homem gay,  assim como Leonilson, eu acabo trazendo essa minha sexualidade e esse afeto homoerótico para os trabalhos."

Série "Saquinhos Cheios"

Muita poesia, muita acidez e muita provocação. Os bordados com as frases de impacto são claramente atuais e dialogam com a situação política, social e cultural do planeta. A série "Saquinhos Cheios" resume bem esse ano de 2020 com palavras e frases que geram uma reflexão além dos likes.


"Havia muita coisa entalada na minha garganta. Não só da política e da situação atual do país, mas de coisas que eu sentia nas relações humanas e nas situações da vida contemporânea. O primeiro saquinho que eu produzi foi um verso escrito por um ex-namorado dizendo 'Saudade é riso triste'. Era tudo que eu queria dizer naquele momento e eu mostrei a ele o bordado. Ele gostou e me incentivou a produzir mais, então comecei a pensar em tudo que eu queria dizer."


Só neste ano, já foram produzidos mais de 200 saquinhos de 12x12 cm. As cores diferentes setorizam as diferentes séries de provocações bordadas. Por exemplo: os saquinhos pretos são sempre “porradas” (como ele mesmo define), os vermelhos tratam de afetos, de amores. E por aí vai... O estímulo para criação é a própria vida cotidiana do Brasil e tudo pode servir de inspiração, desde uma noticiário a um termino de relacionamento.

Série "Saquinhos Cheios"

O trabalho de Tó possuem coleções diferentes Tem as almofadas com frases e expressões, tem bordados de corpos nus, reproduções eróticas, além de bótons, cordões, camisas e ecobags. Uma verdadeira linha de produção.


"Eu tenho muitas ideias todos os dias e separar como vai ser produzida cada ideia é muito importante. Eu sempre tento imaginar como cada coisa vai ficar melhor e desse  modo direciono. Como as almofadas mesmo, eu pensei na série 'Homens' e imaginei que nesse formato me agradaria mais. Eu já havia produzido algumas peças de teste, usando meu corpo como modelo e gostei do resultado, então resolvi ampliar. Uma série que terminei recentemente é 'Tríade'. Ela nasceu no começo desse ano, justamente de um relacionamento poliamoroso que vivi. São nove peças em bastidores de madeira onde adotei um processo de  junção de tecidos banhados em café. Em cada uma desses tecidos, abordei um tipo de trisal, que pode configurar homens com homens, homens com mulheres, mulheres com mulheres, homens trans, mulheres trans, e por aí vai."

Série "Tríade"

Quase todas as peças disponibilizas no instagram do artista estão à venda. Elas podem ser adquiridas por telefone ou por direct e o envio é programado para todo o Brasil e exterior. Se você, leitor, tiver vontade de ter uma peça exclusiva em sua casa, basta procurá-lo. Dessa forma, é possível consumir a arte brasileira e movimentar o fluxo da economia criativa de artistas, incentivando e valorizando o melhor do que é produzido no Brasil.


Não tenha receio. Conversando diretamente com o artista você pode articular direitinho a obra que melhor combina com seu estilo.


Siga Tó nas redes!

Encomendas:

@tolentino_ferraz

(31) 97354-7447

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