ABISMOS DE DOSTOIÉVSKI

“Pairando sobre o abismo” e mergulhando nos Abismos de Dostoiévski”, atores dirigidos por diferentes diretores e equipes – que de alguma forma já vivenciaram a obra de Dostoiévski – criam 6 experiências audiovisuais inspiradas em 6 diferentes obras do escritor russo.

Foto: Edison Kumasaka

Artistas convidam os espectadores a refletir sobre a existência do mal no mundo, sobre a natureza humana com aquilo que há do irracional e tenebroso nela, sobre o coração do homem que, segundo Dostoiévski, é o campo de batalha mais feroz entre Deus e Diabo.


O projeto – idealizado pela produtora Marlene Salgado e a pesquisadora e ensaísta russa Elena Vássina, com a colaboração da atriz Luah Guimarãez – busca por diferentes abordagens que possam explorar e potencializar a diversidade polifônica, a linguagem cine-teatral e a experimentação de caminhos e descaminhos, na transgressão e na descoberta por novas formas, imagens ou metáforas que ajudem a entender todas as questões malditas de Dostoiévski, nosso contemporâneo.


No período de 21 a 26/04/21, a cada dia, às 20h, será transmitida pelo canal do YouTube do Centro Cultural São Paulo uma experiência cênica inspirada na obra de Dostoiévski seguida por debate com integrantes da equipe de criação, mediados por Elena Vássina, também curadora de ABISMOS DE DOSTOIÉVSKI. Dia 21/04, Vivien Buckup (direção) e Celso Frateschi (atuação) em "Crime e Castigo"; dia 22, Ondina Clais e Ruy Cortez (direção) e Marina Tenório (atuação) em "A Dócil"; dia 23, Vadim Nikitin (direção) e Luah Guimarãez (atuação) em "Os Demônios"; dia 24, Donizeti Mazonas (direção e atuação) e Wellington Duarte (atuação) em "O Grande Inquisidor"; dia 25, Clarissa Campolina e Yara de Novaes (direção) e Rômulo Braga (atuação) em "O Veredicto" e dia 26 Cibele Forjaz (direção) e Matheus Nachtergaele (atuação) em "Sonho de um Homem Ridículo"


Considerado o “profeta da literatura russa”, Dostoiévski (1821 -1881) é um dos escritores mais conhecidos e lidos no mundo e sua singular atenção para questões da existência humana nunca foi tão pertinente quanto agora, quando se celebra 200 anos de nascimento do escritor que acreditava que “A Beleza salvará o mundo”.


Muitas das personagens de Dostoiévski são indefesas, solitárias, cheias de complexos, mas são exatamente essas pessoas humildes e mansas que Dostoiévski opõe ao mundo endurecido que precisa da tolerância e da bondade como um de seus principais remédios.


Para o processo de criação foi importante encontrar os personagens de Dostoiévski no limiar das últimas decisões, nos momentos de crises e reviravoltas – todos aqueles momentos que ajudam a “descobrir o homem no homem”, aquilo que, acreditamos, o nosso mundo precisa agora muitíssimo.


sobre ELENA VÁSSINA [idealização, curadoria e mediação dos debates]

Pesquisadora e ensaísta russa, professora do curso das Letras Russas da USP. Formada na Faculdade de Letras da Universidade Estatal de Moscou Lomonóssov (MGU). Possui mestrado em Literatura Comparada pela Universidade Estatal de Moscou, doutorado em História e Teoria de Arte e Pós-doutorado em Teoria e Semiótica de Cultura e Literatura pelo Instituto Estatal de Pesquisa da Arte (Rússia).


Organizadora, autora e tradutora dos livros “Tipologia do simbolismo nas culturas russa e ocidental” (2005), “O cadáver vivo”, de L. Tolstói (2007), “Liev Tolstói: Os últimos dias”(2011), “Teatro russo: literatura e espetáculo” (2011), “Stanislávski: Vida, obra e Sistema” (2015), “Eugênio Oneguin”, de A. Púchkin (2019), entre outros. Foi finalista do prêmio Jabuti e do prêmio Aplauso Brasil.


SOBRE AS EXPERIÊNCIAS AUDIOVISUAIS


O SONHO DE RASKÓLNIKOV

a partir da obra CRIME E CASTIGO


A potência de Dostoiévski se manifesta pelo conjunto da sua obra, mas também em cada romance, novela e capítulo. Esse pequeno sonho narrado ainda no início do romance “Crime e Castigo”, sintetiza de forma onírica a alma de nosso herói e ao mesmo tempo, relido após dois séculos, envolve e questiona a alma de cada leitor que experimenta a sua leitura. Este trabalho procura reforçar o sentido dessa narrativa e oferecer esse sonho fábula para o prazer e a reflexão de quem assistir.


De Fiódor Dostoiévski. Tradução Paulo Bezerra. Atuação Celso Frateschi. Direção Vivien Buckup. Cenografia e figurino Sylvia Moreira. Fotografia João Caldas. Edição Tom Butcher Cury. Música Miguel Caldas. Câmera Alexandre Kok . Coordenação Ágora Teatro Virtual Francisco C. Martins.



A DÓCIL

A Companhia da Memória apresenta uma livre adaptação audiovisual da

obra “A Dócil”, que acompanha os pensamentos de um usuário, cuja mulher acabou de se suicidar. Nas horas que se seguem à morte, sozinho em casa, ele tenta compreender o que aconteceu e como as coisas chegaram a esse ponto.


De Fiódor Dostoiévski. Tradução Marina Nogaeva Tenório. Atuação Marina Nogaeva Tenório. Direção Ondina Clais e Ruy Cortez. Assistência de direção João Vasconcellos. Edição Elizaveta Stishova. Roteiro de edição Ruy Cortez. Câmeras Ondina Clais e Elizaveta Stishova. Som Anna Ostrovskaia. Fotos Ondina Clais. Produção Companhia da Memória.



STAVRÔGUIN, EU MESMO a partir de “Com Tíkhon”, capítulo proibido do romance OS DEMÔNIOS


“Com Tíkhon” é um capítulo-demônio do romance “Os Demônios” (1871-1872), de Fiódor Dostoiévski: foi censurado pelo seu editor, Mikhail Katkóv, porque os críticos o reputavam “real demais”. Esse capítulo-poema, contudo, tem a lógica de um delírio. Dostoiévski, de resto, jamais o viu publicado em vida. Ele pode ser lido como o romance inteiro em miniatura. Ou como todo o terrorismo russo flagrado nos olhos de um ícone. Nikolai Vsiévolodovitch Stavrôguin, o dândi andrógino terrorista, e os seus duplos, a menina Matriôcha, a senhoria, um funcionário pobre-diabo. E a sua própria sombra de Bucéfalo, o cavalo de Alexandre o Grande.

A leitura desse capítulo-sortilégio, marinada numa polifonia de linguagens – o diabo no meio do redemoinho –, é um filme-experimento que almeja auscultar a consciência ao mesmo tempo nítida e nebulosa desse mais um perigoso homem ridículo dostoievskiano.


De Fiódor Dostoiévski. Tradução Paulo Bezerra. Atuação Luah Guimarãez. Roteiro, dramaturgia e direção Vadim Nikitin. Direção de arte e figurinos Joana Porto. Fotografia, câmera e montagem Paulo Camacho. Som direto Tiago Bittencourt . Trilha sonora original Cacá Machado. Voz russa e ícones russos Elena Nikitina. Mixagem de som Ivan Garro.


EM TEU NOME

a partir da obra O GRANDE INQUISIDOR

EM TEU NOME, é uma livre adaptação da obra “O Grande Inquisidor”, de Fiódor Dostoiévski. É interessante pensar que esse texto é um fragmento, excepcional, de uma de suas maiores obras: “Os Irmãos Karamazov”. Uma coisa dentro da outra, nos remete à matrioska, tradicional boneca russa, e seu jogo de espelhamentos.

EM TEU NOME, por sua vez, é um experimento cênico híbrido que parte desse texto literário, ganha corpo com a linguagem do teatro e da dança, mediado pela linguagem do vídeo. A escolha desse luminoso fragmento de Dostoiévski busca também num certo espelhamento, refletir sobre os tempos sombrios em que vivemos. Escrito em 1880, o texto traz questões acerca da natureza humana, da liberdade, do papel dos poderes políticos e religiosos sobre o homem. A lenda de O Grande Inquisidor torna-se uma metáfora perfeita para o fundamentalismo evangélico e seu plano de poder em curso no Brasil. Nesse sentido a obra de Dostoiévski torna-se por demais contemporânea, no sentido de que ao olhar para o passado lança luz sobre as trevas do presente.

De Fiódor Dostoiévski. Tradução Paulo Bezerra. Adaptação, direção e interpretação Donizeti Mazonas. Coreografia, canto e interpretação Wellington Duarte. Fotografia e edição Edson Kumasaka. Captação de som Éric Vasconcelos. Música Gregory Slivar. Pesquisa de imagens Paulo Campagnollo. Cenografia Donizeti Mazonas. Produção executiva, operação de luz e vídeo Jota Rafaelli.


O VEREDICTO Publicado originalmente em “Diário de Escritor”, no número de outubro de 1876, O VEREDICTO é uma narrativa em primeira pessoa em que o protagonista procura justificativas materialistas para o suicídio. Uma experiência essencialmente dialógica que encerra numa única personagem os papeis de réu, defensor, promotor e juiz.


O VEREDICTO, uma carta audiovisual criada por Clarissa Campolina, Rômulo Braga e Yara de Novaes, estrutura-se no diálogo entre duas experiências fílmicas em que um mesmo ator atravessa o tempo e reedita uma antiga personagem, como se ela fosse um espelho sobre o qual se busca a imagem da nova personagem. Enquanto uma perambula pela cidade em busca de si mesma, a outra faz de uma poltrona vermelha o seu lugar no mundo. Um jogo de espelhos que revela que o mal-estar da personagem de Dostoiévski cabe em qualquer tempo e lugar e que, como ele mesmo escreveu a seu irmão, Mikhail, “a vida é vida em toda parte”.


De Fiódor Dostoiévski. Tradução Priscila Marques. Direção Clarissa Campolina e Yara de Novaes. Atuação Rômulo Braga. Imagem e captação sonora Rômulo Braga. Fotografia Gustavo Marx. Arquivo “Os que se vão”, dirigido por Clarissa Campolina e Luiz Pretti, fotografado por Lucas Barbi e gentilmente cedido pelas produtoras Anavilhana e Errante. Trilha sonora Morris Picciotto. Montagem Luiz Pretti. Finalização de imagem Lucas Campolina - Olada. Assistentes de produção e pesquisa Daniela Cambraia e Larissa Barbosa. Produção Yara de Novaes e Anavilhana

O SONHO DE UM HOMEM RIDÍCULO

“O Sonho de um Homem Ridículo” (1877) retoma o tema da idade de Ouro, da utopia social, muito recorrente na obra de Dostoiévski. Aqui a Idade de Ouro é definida como “o mais improvável de todos os sonhos que já houve, mas pelo qual os homens deram toda a sua vida e todas as suas forças, pelo qual morreram e mataram profetas, sem o qual os povos não querem viver e não conseguem morrer”. (...) No breve relato Dostoiévski expõe sua concepção do destino histórico do homem e da Cultura. (Paulo Bezerra, Duas Narrativas Fantásticas, ed.34, 2003).

Nessa leitura por meio de uma plataforma digital, Matheus Nachtergaele confronta a visão de Dostoiévski, expressa no conto de 1877, com a sua vida aqui e agora, em meio a uma crise global - a pandemia de COVID-19 – agravada no Brasil por um governo genocida. Essa releitura cênica do sonho deste “Santo Ridículo” põe em foco a relação complexa dos povos originários (e seus modos de Bem Viver) diante da Civilização Ocidental do século XXI e o seu “pecado original”, a separação entre Natureza e Cultura, assim como suas consequências perigosas para a vida de Gaia, a Terra. Uma luta entre Eros e Thanatos, tanto no campo da subjetividade, quanto no plano social e político.


De Fiódor Dostoiévski. Tradução Vadim Nikitin. Com Matheus Nachtergaele e Cibele Forjaz. Leitura, depoimentos, roteiro e atuação Matheus Nachtergaele. Câmera, videografia, roteiro e edição Manoela Rabinovitch. Direção e roteiro Cibele Forjaz.



PROGRAME-SE


21/4 [quarta] às 20h

O SONHO DE RASKÓLNIKOV a partir da obra CRIME E CASTIGO com Celso Frateschi direção de Vivien Buckup


22/4 [quinta] às 20h A DÓCIL livre adaptação audiovisual

com Marina Nogaeva Tenório direção de Ondina Clais e Ruy Cortez 23/4 [sexta] às 20h STAVRÔGUIN, EU MESMO a partir de "Com Tíkhon", capítulo proibido do romance OS DEMÔNIOS um filme de Luah Guimarãez, Joana Porto, Paulo Camacho, Tiago Bittencourt, Ivan Garro, Elena Nikitina e Vadim Nikitin 24/4 [sábado] às 20h EM TEU NOME livre adaptação de O GRANDE INQUISIDOR com Donizeti Mazonas e Wellington Duarte fotografia e edição de Edson Kumasaka 25/4 [domingo] às 20h O VEREDICTO carta audiovisual criada por Clarissa Campolina, Rômulo Braga e Yara de Novaes 26/4 [segunda] às 20h

O SONHO DE UM HOMEM RIDÍCULO exercício audiovisual ao vivo por plataforma digital criação de Cibele Forjaz e Matheus Nachtergaele com cine artivismo de Manoela Rabinovitch


SOBRE o projeto ABISMOS DE DOSTOIÉVSKI

idealização: Marlene Salgado e Elena Vássina

curadoria: Elena Vássina

produção: Marlene Salgado

projeto contemplado e realizado com recursos da Lei Emergencial Aldir Blanc