A VOLTA DE SASSÁ MUTEMA

Importante novela da televisão brasileira está de volta hoje no Canal Viva. "O Salvador da Pátria", de Lauro César Muniz falava de jogo político e tráfico de drogas.

Lima Duarté é Sassá Mutema - Globo

O ano era 1989 e as produções da televisão brasileira assumiram discurso político sem receio da censura, que havia sido encerrada anos antes. Enquanto no horário das sete era exibida a requintada sátira do Brasil "Que Rei Sou Eu?", de Cassiano Gabus Mendes, o horário das oito apostava numa trama densa, que falou de temas sérios, ainda que do meio para o fim tenha se perdido.


"Que Rei Sou Eu?", falava da queda do Reino de Avilã após a morte do rei Pétrus II (Gianfrancesco Guarnieri). Em seu lugar, assume a alienada Rainha Valentine (Tereza Rachel), altamente influenciada pelo guru Ravengar (Antonio Abujamra). Avilã ironizava o Brasil de 89, onde os impostos pagos pelo povo eram desviados pelos conselheiros da rainha, sem que ela entendesse nada de gestão pública.


No leito de morte, o rei revela ter um herdeiro e é nesse momento que Ravengar escolhe um mendigo do povo e o prepara para se fazer passar por esse herdeiro, seguindo todos os seus ensinamentos. No entanto, no condado, o revolucionário Jean Pierre (Edson Celulari) tenta destruir o poder local, até que um dia descobre que é ele o filho bastardo do rei. Jean Pierre era a visão do governo novo, jovem e democrata, muito diferente do governo vigente, que tinha pitadas de um certo governo Sarney.


"O Salvador da Pátria", por sua vez, contava a história do bóia-fria Salvador (Lima Duarte), que nasceu na fazenda Mutema (daí o nome Sassá Mutema). Sassá é lavrador e junto com seus companheiros da terceira idade frequenta aulas de alfabetização no município de Tangará. É numa dessas aulas que ele conhece a professorinha Clotilde (Maitê Proença), nutrindo por ela uma grande paixão. Sassá trabalha nas terras do político Severo Blanco (Francisco Cuoco), que começa a perder votos na eleição quando o jornalista Juca Pirama (Luis Gustavo) revela em sua rádio que ele tem um caso fora do casamento. Sua amante é Marlene (Tássia Camargo) e através de um plano cruel, Sassá Mutema é usado como bode expiatório e obrigado a se casar com a moça.


Casando com Marlene, Sassá se torna um marido de fachada e livra a imagem do verdadeiro amante, Severo Blanco. Tudo vai muito bem, até as investidas do jornalista Juca Pirama. Em determinado momento da trama, Juca e Marlene são misteriosamente assassinados e Sassá Mutema se torna o principal suspeito. É nesta fase que acontece uma reviravolta na história.


Sassá acaba no meio de um turbilhão popular que defende sua soltura, já que, hipoteticamente, ele os teria matado em virtude de adultério (argumento que hoje seria criticado com razão pelo público). O advogado Cássio Marins (Thales Pan Chacon) se propõe a defendê-lo. Logo também vem à tona que Juca Pirama, conservador, moralista, íntegro, era na verdade integrante de uma quadrilha de tráfico internacional de drogas. Sassá é inocente, mas convém dizer que é culpado, perante a população, e ele é convencido disso.


De um lado, os políticos locais passam a ver em Sassá uma figura viável para a prefeitura de Tangará. De outro lado, os criminosos veem nele o prefeito ideal para favorecer a cidade como rota do tráfico.


Percebem que isso em 1989 foi bem impactante por ser justamente o ano das eleições? Jean Pierre, de "Que Rei Sou Eu?" foi naturalmente associado ao jovem e bonito Fernando Collor de Melo, que aparecia como um esportista nas campanhas, dando a entender que, com ele o Brasil teria essa força jovem no Planalto. Sassá Mutema, de "O Salvador da Pátria", foi associado, então, a Luiz Inácio Lula da Silva, que também disputava a vaga no Planalto. Muitos disseram que a novela deixava claro que a figura do homem simples era apenas meio de articulação de outras lideranças que queriam esse arquétipo de homem do povo no poder. Não faltaram críticas às duas tramas.


TRAMA CONFUSA E REPRISE PICOTADA


Com a pressão da crítica e algumas falhas estruturais do roteiro, "O Salvador da Pátria" foi deixando de lado a ideia da ascenção política de Sassá. O plot inicial seria mostrar o alpinismo social de um homem do povo que sai do campo, vira prefeito e, posteriormente, chega a Brasília por meio de articulações nada éticas. Com o risco de rejeição, a novela mudou de rumo e investiu no mistério sobre o tráfico de drogas. Uma trama confusa, cheia de vacilos sobre o que seria esse tráfico. No último capítulo, descobre-se que era cocaína. Sassá, que muda de postura e se torna um político bem articulado, fica em meio à troca de tiros entre os poderosos políticos e os contrabandistas. Daí surgem três elementos clichês que sustentaram a novela em seus meses finais:


1. Juca Pirama estava vivo ou morto?

Diferentes situações davam a entender que a morte de Juca foi uma farsa e que ele continuava liderando o tráfico escondido por Tangará


2. Quem era o líder da associação criminosa que exportava cocaína (que na novela era chamada apenas de "tóxico")?


3. Sassá Mutema é corrompido pelo poder?


Isso rendeu muita enrolação na história e tramas paralelas tiveram que surgir para dar gás e uma certa leveza à narrativa proposta nos 186 capítulos. O próprio Severo Blanco, que vivia às indas e vindas com a esposa Gilda (Suzana Vieira), passou a ter uma nova amante: A jovem Bárbara (Lúcia Veríssimo), filha de um importante banqueiro que ajudava seu partido.


"O Salvador da Pátria" foi reprisada em 1998 no Vale a pena ver de novo". Uma reprise considerada antiga na época (uma vez que no período o Vale a pena sempre reprisava novelas de até cinco, seis anos atrás, no máximo). A trama passou de abril a agosto. Foram quatro meses no ar e 88 capítulos exibidos. Seriam 90, mas aquele era ano de copa do mundo e a novela não foi transmitida por dois dias. Os mais atentos lembrarão também que nos outros dias ela era até exibida, mas em horários diferentes, por vezes com capítulos curtíssimos. Ficou bem difícil acompanhar a história. Não dava pra saber direito quando ela iria ao ar. Foi então que os cortes aceleraram a história, que já era confusa, deixando a reprise super difícil de entender.


Existem novelas que envelhecem bem e outras que se tornam datadas com o passar dos anos. Não dá pra saber como será a recepção de "O Salvador da Pátria" nos dias de hoje. O que dá pra saber é que, agora, o público poderá acompanhar a novela com calma e sem cortes.


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