• Josuel Junior - Editoria

A ASCENSÃO E A QUEDA LIVRE DE REGINA DUARTE

Ela já havia decepcionado a opinião pública muito antes de aceitar o convite para assumir a pasta da cultura. Agora, enterra de vez toda uma trajetória de sucesso na TV. Regina Duarte caiu... e caiu feio.


A entrada e a saída de Regina Duarte como Secretária Especial da Cultura do governo Bolsonaro impactaram a opinião pública de duas maneiras: De um lado, havia o estranhamento e a dúvida da classe artística quanto à sua nomeação e do outro lado o fascínio de quem a assistiu apenas nas novelas e tinha nela um exemplo de boa artista pelos papeis que interpretou.


Pela classe, Regina era tida como uma figura um pouco desnorteada, com uma leve simpatia pela ideologia de direita. Ela chegou a ser muito criticada na campanha eleitoral de 2002 em que dizia "ter medo" da vitória de Lula.


Opiniões políticas à parte, tínhamos na imagem dela uma imagem até cativa, afinal, participou das melhores telenovelas brasileiras. Enquanto país onde a cultura de massas é internacionalmente conhecida, Regina Duarte foi sim um rosto familiar em nossas casas.


Todo mundo já viu novela um dia. Assim como todo mundo deixou de ver novela um dia. A telenovela, já sabemos, tem como público alvo as donas de casa e as crianças e adolescentes. Por isso é tão comum dizer que "novela boa era novela do nosso tempo". Porém, esse tempo, na verdade, era o tempo em que tínhamos a disposição de acompanhar as tramas de TV. Com os estudos e a rotina de trabalho, deixamos de ver mesmo. É natural.


No caso de Regina Duarte, o convite do presidente confundiu um pouco a cabeça dos brasileiros. Pensemos:


Ela foi a namoradinha do Brasil pelos seus papéis açucarados em "Minha Doce Namorada", "Irmãos Coragem" e "Selva de Pedra", na década de 1970;


Ela foi Malu Mulher, no seriado homônimo que mostrava a emancipação feminina perante os padrões machistas da sociedade do começo dos anos 1980. Foi o retrato de mulheres que sofriam em casamentos abusivos e sem perspectiva de autonomia. Para quem assistiu, a mensagem positiva desse movimento feminista não sai da memória;


Ela foi Viúva Porcina em "Roque Santeiro", uma novela nacionalmente conhecida por ser uma afronta ao militarismo e ao regime autoritarista dos coronéis que comandavam o Brasil. A obra, inclusive, é um marco da interferência da censura nas artes. Advinda do texto teatral "O Berço do Herói", de Dias Gomes, a trama atacava diretamente a criação de mitos políticos e sociais, revelando um país arcaico e ainda apegado aos costumes que se beneficiavam da ignorância dos mais pobres para o enriquecimento dos mais ricos. Sem dúvida, um dos maiores acertos da televisão;


Ela foi Raquel Acioly de "Vale Tudo". A novela de Gilberto Braga fica entre as cinco melhores já realizadas. Mostrava a ascensão de uma mãe enganada pela filha e que tentava subir na vida honestamente, sem se corromper. Na trama, a protagonista, que fica pobre, encontra uma maleta cheia de dólares e o conflito de usar ou não o dinheiro leva a história a níveis interessantíssimos de discussão sobre ética. Ela decide não usar e cresce na vida honestamente, a ponto de ser dona de uma cadeia de restaurantes. Já rica, enfrenta as maldades de Odete Roitman, vilã inesquecível que, assumidamente preconceituosa, incentivava seus colaboradores a cometerem crimes de colarinho branco. O embate entre as duas mostrava claramente a luta de quem trabalhava e de quem corrompia. Valia de tudo pra subir na vida?;


Ela foi Maria do Carmo, representante do proletariado, vendedora de ferro-velho. Com muito trabalho, construiu com seu pai um império de revendas de automóveis e tornou-se a Rainha da Sucata. Uma novela bem humorada que mostrava a decadência dos quatrocentões paulistanos e a escalada social da classe baixa. Uma chanchada deliciosa da televisão no início dos anos 1990;


Ela foi Helena por três vezes nas obras de Manoel Carlos. Primeiro em "História de Amor", onde fazia o papel de um corretora de imóveis de classe média que lutava sozinha na criação da filha adolescente, que engravida logo no início da trama. A Helena representava tantas outras mães que passaram pelo mesmo desafio. O sucesso foi estrondoso e anos depois voltou como outra Helena, dessa vez em "Por Amor". Na trama, mãe e filha engravidam num mesmo período e agendam o parto de seus filhos no mesmo dia. Na maternidade, o bebê de sua filha tem complicações e morre. Sem pensar muito, Helena troca em crianças e abdica da função de mãe para ser avó. Uma tragédia folhetinesca de primeira qualidade. Tempos depois, foi a vez da novela "Páginas a Vida", em que Helena, uma obstetra, adota uma criança com síndrome de down rejeitada pela família. Impossível não se emocionar com as abordagens e associar os papéis à uma profissional do bem.


Pois bem... Essa mesma Regina deveria decidir se sairia ou não da Rede Globo para trabalhar na Esplanada dos Ministérios. Ela tentou não sair. Quis sair e ter garantia de voltar. A emissora não deu essa opção e, como era a artista que tinha tomado a decisão de romper o contrato, a Globo não aceitou demiti-la. Saiu por vontade própria.


A namoradinha do presidente passou a compor o governo brasileiro a partir de março de 2020. Sua entrada foi polêmica. Assumiu a pasta que antes estava destinada a Roberto Alvim, demitido por fazer propaganda com apologia nazista usando meios oficiais. Apelo e empatia popular ela tinha, a gente querendo ou não. Na Secretaria de Cultura, seria uma apaziguadora testa-de-ferro, uma vez que o setor artístico estava (e está) sendo atacado pela ideologia cruel do presidente. Sua nomeação minimizou a atrocidade do que aconteceu com Alvim porque, numericamente, os milhares de twittes com o nome dela fizeram a direita acreditar que o Bolsonaro foi eficiente e corrigiu algo prontamente quando alguém de seu governo pisou na bola.


Depois de muito demorar a assumir a pasta, Regina Duarte teve sua estreia catastrófica num discurso raso, alienado e torpe. Se igualou ao presidente no deboche, na arrogância e no fanatismo. Suas pouquíssimas aparições públicas denotaram uma questão importante: Regina nunca havia sido sabatinada. Todas as entrevistas que ela cedeu foram para enaltecer sua longa carreira. Falava-se sempre de Porcina, de Helena e de Malu Mulher. Ela estava acostumada aos mimos.


De repente, todas as boas histórias que falavam da força feminina contra o machismo, contra a corrupção, desigualdade de classe e contra a má política perderam a força e a relevância quando aceitou dar uma entrevista para o canal CNN Brasil. Com uma visão cruel, zombou das ações do período da ditadura, ignorou a morte de artistas do Brasil e culpabilizou a imprensa por falar demais em mortes, afinal, todos nascem e morrem. Talvez ela tenha se esquecido de que o planeta está doente com um vírus que mata em escala assustadora. No ápice de sua performance canastra, irritou-se com um vídeo de Maitê Proença, que questionava as ações de Regina no governo, que até então pareciam omissas e pouco eficientes. Encerrou a entrevista dando um chilique... E não falou da cultura. Sobre o carisma, simpatia e representatividade... Sim... Era tudo um papel. Era atuação. Na CNN, vimos pela primeira vez a Regina Duarte sem vícios de atuação. Era ela mesma, ao vivo, sem direção e sem máscara.


Agora, depois de um sumiço estratégico (aliás, é o que ela mais tem feito), anunciou em vídeo com o presidente que sai da pasta para assumir, com alegria, a Cinemateca Brasileira, em São Paulo.


Sua ineficiência e despreparo não deram conta de discutir com a ala ideológica do governo, que a impedia de realizar algumas ações e nomeações. Ela quer sair bem. Terá assessoria para sair da pasta, mas não tem jeito. Saiu mal... Saiu deixando em nós um gosto de fel na boca. Um gosto amargo da ditadura e do autoritarismo.


À classe trabalhadora das artes, fica o nosso desejo de sorte, pois precisará muito dela para seguir. À Regina Duarte, nada mais. Não tem reprise do "Vale a pena ver de novo" ou do Canal Viva que a salve.


Eis uma artista que termina mal... muito mal.


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